Num primeiro momento, todos querem falar, desabafar, colocar pra fora e dividir um pouco seu sofrimento, sua dor, sua mágoa, sua culpa. Quase não escutam uns aos outros, tal a necessidade sufocada de falar.
Muitos não entendiam os objetivos do nosso grupo. Chegavam, despejavam sua aflição e depois não mais voltavam. Quem ficava, não compreendia porque não retornavam já que estavam tão desesperados.
Outros frequentavam por um tempo e desapareciam, tentavam fugir, negar, pois não conseguiam se identificar com as situações apresentadas, não aceitando que seu familiar estivesse com aquela doença. “Prefiro não saber”. “Isto não está acontecendo comigo”.
Também há os que adoecem de tão difícil que é para eles aceitarem as mudanças que um familiar com demência traz para suas vidas. Preferem se tornar vítimas em vez de “cuidadores”. Apresentam diversos tipos de doenças, enfartes, quedas com conseqüências sérias, pressão alta, depressão, baixam no CTI com estresse agudo, e às vezes, morrem. Recusam a se cuidar.
É preciso um enorme esforço, um desejo verdadeiro para enfrentar esta doença devastadora. É preciso admitir que necessito de ajuda para este enfrentamento e necessito de ajuda para cuidar de mim mesmo.
Cuidar-se é estimar-se, gostar-se.
A autoestima do cuidador é importante porque o dar e receber afeto do doente dependem da autoestima do cuidador. Como o doente não diferencia mais o que sente, ele vai sentir o que o cuidador sente. Se o cuidador está bem, o doente estará também. Se cuidador está tenso, agitado, preocupado, apressado, estas atitudes refletirão no doente.
Nossas reuniões da Grupoterapia ficavam num ir e vir constante, com rotatividade de participantes. A conseqüência disso é que não saíamos dos desabafos, do alívio das tensões. Acontecia uma pequena troca de experiências e busca de apoio, principalmente de soluções para os inúmeros problemas. Receitas nem sempre funcionam e há de se ter uma criatividade enorme nas estratégias para lidar com nossos doentes.
Mas, como fortalecer o grupo, como criar uma verdadeira rede de sustentação afetiva para estas pessoas?
A cada semana tínhamos novos participantes, que na reunião seguinte não apareciam, pois tinham vindo apenas em busca de um alívio imediato. Sabíamos, entretanto, que logo o copo d’água transbordaria novamente.
O nosso objetivo de fortalecimento e suporte do familiar cuidador só poderia ser realizado com a continuidade de comparecimento às reuniões do grupo, com a constância.
Olhar-se num primeiro momento, conhecer-se, entrar em contato com seus sentimentos e emoções, aceitando-os. Num outro momento, poder cuidar do seu doente, olhar para ele e perceber sua doença e, quem sabe, no fundo de seus olhos, compartilhar sua dor, sua perplexidade diante da doença, aceitá-lo e compreendê-lo. Surgiria, então, uma nova relação com ele, completamente diferente da relação existente antes da doença.
Este objetivo tornou-se um grande desafio – a cada dia, aprendia com a nova experiência na APAZ, percebia que não há regras para o grupo, e que o caminho vamos traçando juntos ao caminhar, de acordo com as necessidades que surgiam. Com o tempo, começamos a ter algumas pessoas mais assíduas e que começaram a formar um verdadeiro grupo.
