29 de agosto de 2010

Idéias equivocadas do familiar do doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 18:50
 

Ou você já pensou, ouviu ou falou algo assim?

  • Eu não estou doente. Quem precisa se tratar é o meu familiar.
  • Psicoterapia demora muito. Preciso de uma solução já. Você não tem um remedinho para me dar?
  • Não tenho tempo!
  • Tenho medo de algo que não conheço.
  • Será que eu vou desenvolver esta doença pela hereditariedade?
  • Não quero enfrentar isso agora.
  • Não quero entrar em contato com meus conflitos familiares. Melhor deixar como está.
  • Isto não está acontecendo comigo!
  • Não posso admitir que não sou perfeita, que minha família não é perfeita.
  • Preciso manter as aparências.
  • Tenho vergonha de sair com meu familiar.
  • Não quero me expor, me mostrar.
  • Tenho medo de mudanças.
  • Não preciso de ajuda, posso cuidar de tudo.
  • Só estou interessada nos fatos, nas fases da doença, nos remédios que devo dar.
  • Não tenho com quem deixar o doente.
  • Meu familiar só quer ficar comigo, não posso deixá-lo com outra pessoa, ele não aceita.
  • Meu familiar não quer “estranhos” na nossa casa.
  • Tenho que fazer todo serviço da casa, além de cuidar do meu familiar.
  • ETC…ETC…ETC…

Aproveite para refletir e entrar em contato com o que está sentindo, e quem sabe, poderá se ajudar, buscar ajuda, ou ajudar alguém que está passando pelo problema.

Perguntas para o familiar do doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 18:33
 

Faça o melhor que puder, mas não fuja de você mesmo. Olhe dentro de si – pois é a hora da SUA VERDADE!

Quem sou eu?

O que esta doença está querendo me mostrar?

Quais são as minhas dificuldades?

Sou do tipo que quer resolver tudo sozinho sem ajuda?

Ou sou do tipo que não quer ver a doença, não aceita?

Quais meus talentos? Minhas aptidões?

Tenho tempo para me cuidar?

O que me dá prazer?

Quais são meus melhores momentos com meu familiar doente?

Quais são meus piores momentos com meu familiar doente?

Que outras atividades tenho, além de cuidar do meu familiar?

O que eu tenho desejo, vontade de fazer, e não faço?

Faço reuniões de família para dividir e compartilhar problemas e soluções?

Tenho procurado meus amigos (não para falar sobre a doença)?

Freqüento reuniões da Apaz  ou outras instituições que reúnem familiares de DA ou outras demências?

Procuro me informar sobre a Doença?

Busco ajuda psicológica – Psicoterapia Individual, Psicoterapia Familiar ou Psicoterapia de Grupo?

Procure responder sinceramente a essas questões, pois se voce não se cuidar, não terá condições de cuidar do seu familiar com doença de Alzheimer! Coragem. Voce é capaz!

25 de agosto de 2010

“Voce lembra…?”

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 14:57
 

No contato com os familiares de doentes com Alzheimer, tanto na Psicoterapia Individual como na Grupoterapia da Apaz, nos deparamos com muitas dúvidas em relação ao modo de lidar com os “esquecimentos” do nosso familiar.

Muitas vezes, as pessoas estão frequentando aulas para exercitar a memória, fazendo palavras cruzadas, lendo e interpretando textos, fazendo exercícios físicos, dança, canto coral, estudando informática ou outro idioma, enfim, fazendo atividades para prevenção de um déficit cognitivo leve que  vai se instalando com o passar dos anos.

Os profissionais de saúde recomendam todo tipo de atividades, além de uma dieta adequada para manter um corpo e um cérebro saudáveis. Numa palestra que fui uma vez, de uma pesquisadora americana, ela dizia: “Tudo que faz bem ao coração, faz bem ao cérebro.”

No entanto, se nosso familiar tem a doença de Alzheimer, o consenso que chegamos é que há de se ter cautela com as atividades propostas a ele. Muitas vezes, em vez de ajudar, acabamos criando mais ansiedade, tristeza, ou mesmo uma reação desagradável, agressiva. Alguns doentes até desenvolvem um mecanismo de defesa para camuflar suas dificuldades, que chamamos de “saída honrosa ” para seus lapsos.

Numa fase mais leve e moderada da doença, nosso familiar tem muitos momentos de lucidez. Parece então, que quando sua memória falha, quando repete o que acabou de perguntar, ou quando não lembra o nome do próprio filho,  nem o que acabou de almoçar, ou chama pelo marido que já morreu,  não está se esforçando para lembrar ou está com preguiça de pensar. “Ou será que está implicando comigo?

Então, tentamos ajudá-lo a lembrar com questionamentos,  sabatinas, dizendo que acabou de fazer a mesma pergunta quatro vezes, que acabou de almoçar, e como não lembra o  nome do seu filho que veio te visitar, que o marido já morreu…” Voce lembra…?”

Nós, familiares, temos tais comportamentos com a melhor das intenções. Queremos que nosso familiar exercite sua memória e se esforce para pensar. Mas isso não depende da sua vontade! A memória vai se apagando de verdade e até o  momento, ainda não temos certeza de que algo possa recuperá-la.

Mas sabemos que mostrar ao nosso familiar o que ele perdeu, não ajuda em nada. Traz mais ansiedade, mais confusão mental, mais tristeza.  Lembro sempre de um familiar que pegava fotos de todos da família e mostrava para sua mãe, questionando os nomes das pessoas. “Quem é esse?” Achava que estava ajudando a mãe, mas só conseguia deixá-la chorosa e triste.

Portanto, em vez de enfatizarmos as capacidades que o nosso doente perdeu, poderíamos estimular as capacidades que ele ainda tem. Buscar atividades que o doente gosta de fazer, fazer junto com ele e  deixar que ele faça sozinho, o que ainda consegue fazer, sem apressá-lo.

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22 de agosto de 2010

Familiar de doente com Alzheimer é Ser Humano!

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 16:41
 

Não é tarefa fácil essa de olhar-se, autoconhecer-se, esse caminho de crescer como ser humano.

Exige coragem, esforço, persistência para aguentar os altos e baixos, desejo verdadeiro de cuidar-se, gostar-se.

Acreditar que se eu estiver bem, seguro em minhas decisões, o meu familiar que tem Alzheimer estará bem, calmo, tranqüilo.

Restabelecer uma nova relação com seu familiar doente– revisitar antigos afetos, antigos conflitos que não foram solucionados no passado – compreender melhor e poder dar e receber afeto de uma nova forma.

Importante trabalhar o dar e receber afeto, o contato físico, o olho no olho, estimular os sentidos, a comunicação não verbal, a criatividade para lançar mão de estratégias de enfrentamento de situações inusitadas e inesperadas, tão freqüentes no decorrer da doença.

Estressado e desesperado, dificilmente alguém poderá tomar decisões sensatas e ter respostas flexíveis e criativas ao lidar com seu familiar doente.

Existe uma enorme dificuldade em aceitar a doença. Procura-se por todos os meios negar a situação. É humano. Compreender que todas aquelas manifestações  que lemos nos manuais sobre a doença que estão acontecendo em nossa família, em nossa casa,  fazem parte de um conjunto de sintomas da Doença de Alzheimer e que nada disso é pessoal e dirigido para nos magoar.

Não é fácil!

Somos seres humanos com nossas forças e fraquezas!

Somos afetados pelos comportamentos do doente!

Temos raiva!

Temos vergonha!

Queremos a resposta mágica!

Há momentos em que é preciso aceitar isso também e nos perdoar. Não temos que ser Super Homens ou Super Mulheres!

Temos o direito de errar, porque errando é que se acerta, é que se faz. Quem tem medo demais de errar, deixa de fazer, de tentar acertar. Além do mais, nesta doença não tem certo ou errado. Tem o adequado para cada momento, para cada família.

Sabemos que é preciso ter paciência, controle, tranqüilidade, mas tem hora que perdemos a paciência, o controle, a tranqüilidade. Mas, se conseguirmos enxergar tudo isso como parte de um processo de crescimento, a cada dia teremos mais consciência de nós mesmos, de nosso comportamento e das influências de nosso estado de humor no nosso doente. Buscaremos então ajuda nestes momentos, afastamento do estresse diário, buscando novas energias, ar e luz para nossa renovação e fortalecimento.

O que escrevo aqui não deve ser encarado como um Manual – porque os manuais não se aplicam aos seres humanos. Na verdade, os manuais nos frustram porque nos revelam quão incompetentes nos somos em lidar com nossos doentes. Por mais que nos esforçamos, não correspondemos às expectativas dos manuais.

Ninguém é perfeito, portanto, não almeje a perfeição.

Respire fundo e relaxe!

Reuniões da APAZ

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 16:14
 

A Apaz – Associação de Parentes e Amigos dos Doentes com Alzheimer faz Reuniões Mensais para familiares e cuidadores. Sempre nas terceiras terças-feiras do mes.  São reuniões bem concorridas, onde se fala sobre a Doença de Alzheimer, compartilha-se experiências, informações úteis e práticas para os familiares e cuidadores. Há palestras de profissionais de saúde e demais profissionais envolvidos nos cuidados com o doente. São divulgadas as últimas novidades sobre a Doença de Alzheimer.

As Reuniões Mensais são preparadas e conduzidas pela presidente Maria Aparecida, Cidinha, e pela vice-presidente Lourdinha, ambas familiares de doentes com Alzheimer.

Participar das reuniões é interessante porque sempre se aprende muito. Mesmo que nossa freqüência seja assídua,  sempre  terá uma novidade e será uma experiência  enriquecedora.  Posso dizer que aprendo a cada reunião que vou. Aprendo sobre estratégias para lidar com a doença e aprendo sobre os sentimentos dos familiares.

Recentemente, numa entrevista que dei para o blog Gestão de Pessoas e Negócios-GPN, http//gpn.pepelavandeira.com.br, recomendei que os profissionais de Recursos Humanos das Empresas participem desta Reunião Mensal da APAZ, de modo a conhecerem na prática o resultado desta doença nos familiares, e possam assim ajudar e orientar, sobretudo, compreender os colaboradores da empresa que tenham doentes com Alzheimer sob sua responsabilidade.

Nas reuiniões ouve-se bastante sobre a dor do familiar/cuidador – o sofrimento imenso em que está imerso – e como é impossível dar conta desta dor sozinho.

Compartilhar a dor na Reunião Mensal com certeza traz certo alívio, além do sentimento de não estar só, de que não é o único sofredor deste mal. E muitas vezes, perceber que há casos melhores e piores do que o seu. Ao ouvir o relato de outros familiares, podemos ter novas idéias quanto aos cuidados com nossos doentes, desenvolvendo nossa criatividade e flexibilidade no difícil dia-a-dia com o doente.

Para alguns, bastará vir às Reuniões Mensais buscar alívio para seu sofrimento.

Para outros, não bastará buscar alívio momentâneo, pois será necessária uma mudança mais drástica no seu modo de viver a situação, que desestruturou sua vida e de sua família. Precisarão do auxílio de algum tipo de Psicoterapia, quer seja individual, familiar ou em grupo. Necessitam ajuda para poder se cuidar, lidar com suas culpas, sua raiva, sua tristeza, seus medos, suas perdas diárias.

18 de agosto de 2010

“Quero ir para minha casa”!

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:40
 

Uma das situações mais comuns que o Grupo de familiares de doentes com Alzheimer relata inúmeras vezes é: “Quero ir para minha casa” ou “Quero voltar para casa”, repetido numa fase específica da Doença de Alzheimer.

O doente pode estar na sua própria casa, na Casa Geriátrica ou Centro de Convivência ou Casa de Repouso, na casa de algum parente, no consultório médico – não importa, vai repetir inúmeras vezes esta frase.

O familiar tende  a interpretar, como que se num lampejo de consciência, o doente estivesse manifestando, expressando um desejo. Será?

Que casa é essa que ele quer retornar?

Será a da infância, ou a de quando casou, já que a memória passada é a mais accessível?

A que parte do passado ele se refere?

Seria mesmo uma lembrança momentânea?

Ou apenas uma maneira de dizer que algo está errado?

Que se sente inseguro por não saber onde está?

Que não sabe quem é, que está inteiramente perdido?

Será que o desejo do doente não se refere a retornar a um estado anterior, sem doença, quando era independente e dono da sua vida?

A família tende sempre a interpretar pela lógica racional e custa muito a aceitar aquela fala como algo da doença. Afirma sempre que são momentos de lucidez do seu ente querido. Que lucidez?

Pode haver momentos de consciência, não sabemos até que ponto, mas a lógica há de ser outra, é preciso olhar sob outro ponto de vista.

Mesmo os que já lidam muito tempo com a doença, tem lá suas recaídas e tendem a levar ao pé da letra tudo o que o doente diz. Muitas vezes, tal diálogo se torna um motivo de frustração, mágoa e até mesmo de confronto porque acabam argumentando e contra-argumentando com o doente, sem chegar a nenhuma conclusão. Pode ser que por um momento, apenas por um momento, dá um certo alento acreditar que o doente voltou a ser o que era antes da doença.

Sabemos intelectualmente que a lógica do doente é diferente da nossa, mas no nosso emocional é como se pudéssemos apenas por um momento ter o nosso querido de volta.

Exemplo: A mãe, muitos anos com DA diagnosticada, diz para a filha:

_ “Sou uma largada!”

Tal frase causa um impacto fulminante na filha, que até se aposentou precocemente para cuidar da mãe doente, trazendo-a para sua casa, fazendo o melhor possível para cuidar da mãe.

No entanto, o tal sentimento de culpa foi acionado, a filha ficou magoada com a expressão do sentimento da mãe.

É preciso elaborar melhor as culpas, as mágoas do passado, a raiva e compreender as expressões verbais e não verbais no contexto atual, resgatando a relação com o familiar doente. Nada é fácil nesta doença e na relação com o doente, mas as situações podem ser resolvidas se enfrentadas com coragem.

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Responsabilidade do familiar do doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:14
 

Como é difícil assumir a responsabilidade pelo seu familiar doente!  Que posição tomar diante desta doença?

Dar medicação prescrita pelo médico para estabilizar o quadro, mesmo sabendo que a progressão da doença é irreversível, que não há cura?

Manter a Qualidade de Vida do doente? Mas que Qualidade de Vida?  Uma pessoa com demência, que não sabe quem é nem onde está, que perdeu a capacidade de raciocínio e demais funções cognitivas pode viver com qualidade?

Quem decide qual o tratamento do doente?

Dar ou não dar o remédio? Quando dar? Quando parar? Analisar o custo / benefício?

Buscar soluções de conforto alternativas?

Medicações alternativas?

Prolongar a vida que não é mais vida?

Prolongar o sofrimento?

A responsabilidade de qual caminho seguir é sempre da família, já que o doente não tem condições de escolher.

Muitas pessoas, ainda lúcidas, falam aos seus familiares como gostariam de ser tratados em caso de doença grave ou na sua morte:  não ser ressuscitado, não ir para UTI, não ser mantido em aparelhos,  onde gostaria de ser enterrado, se gostaria de ser cremado, onde suas cinzas seriam jogadas, etc…

No entanto, para a maioria das famílias a doença grave e a morte são assuntos proibidos, como se nunca fossem nos atingir. Por isso é muito difícil para os familiares tomarem decisões em relação ao familiar doente.

Cada pessoa é única, cada família tem seus valores, suas crenças.

Mas, sempre ajuda se na hora de tomar decisões, tentarmos lembrar quem foi essa pessoa que hoje adoeceu, que coisas ela gostava, como foi sua vida, como era seu comportamento em relação a doenças e em relação a morte.

Não é fácil, repito. Não há receita. Mas todos nós gostaríamos de ter a receita, o remédio, a pílula mágica. É por isso que muitas vezes buscamos nossa salvação no Médico. Numa busca quase desesperada de alguém que decida por nós.  Como se o Doutor tivesse “a solução”!

E ficamos muito frustrados quando nos damos conta que a Medicina, infelizmente não tem “a resposta certa”. Até mesmo porque não existe resposta certa. Não se trata de uma ciência exata, mas de uma ciência experimental. E o Doutor não é Deus!

Importante é sempre ter informação, ler sobre a doença, ouvir a opinião dos médicos (sou a favor da segunda  opinião), das pessoas que passam por problemas similares, dos profissionais de saúde que lidam com a DA, na Internet, nas associações de familiares – enfim, as informações sempre serão úteis para podermos escolher qual o caminho a seguir.

No meu contato com familiares de doentes com Alzheimer, descobri que, depois de muito penar, cada familiar opta por um tipo de tratamento. Há os que seguem estritamente o que o Neurologista recomenda, há os que preferem o acompanhamento do Geriatra, há os que só consultam seus Clínicos de confiança, há os que não usam os remédios para estabilizar a memória, há os que preferem a Medicina Ortomolecular, a Fitoterapia, a Medicina Chinesa, a Homeopatia, enfim, cada um acaba acertando com um tipo de tratamento. Há também os que dependem dos serviços públicos, não tendo muitas alternativas de escolha.

O fato é que as soluções nunca são definitivas, elas são adequadas durante um certo período de tempo, que varia de acordo com cada doente. Depois precisam ser revistas, reavaliadas, ou mesmo modificadas, pois a doença vai evoluindo.

A estabilização da doença nem sempre depende dos remédios que o doente toma, mas  a evolução progressiva da doença contempla a todos de forma avassaladora.

Sabemos que a atitude da família e do cuidador vão influenciar sempre no bem estar do doente, mais até do que a medicação que ele toma. Ele sempre vai reagir de acordo com o ambiente ao seu redor.

Com a progressão da doença o doente perde a noção do que lhe é gratificante, sua auto-estima fica imperceptível, portanto seu bem estar, suas necessidades e sua afetividade passam a se espelhar nas atitudes dos que com ele convivem. Cada familiar, cada cuidador tem sua própria história de vida, sua personalidade, seus limites, seu modo de ser, de expressar seu afeto.

Como a auto-estima de quem é cuidado está diretamente ligada a auto-estima do cuidador, é da maior importância que o cuidador se cuide.

Por isso defendemos a Grupoterapia para os familiares, uma Psicoterapia que embarca numa viagem de autoconhecimento e de onde surgirão novos papéis e respostas criativas para dar conta do convívio com essa “maldita” (ou “bem-dita”, se encarada como crescimento pessoal) doença.

15 de agosto de 2010

Familiar/cuidador como protagonista na doença de Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 19:47
 

Quanto mais escuto os familiares dos doentes com Alzheimer, mais aprendo que o familiar/cuidador é o protagonista de cada história de DA.

Também me parece o membro mais forte da família, o que se responsabiliza pelo doente e busca solucionar a complexa história da família, traduzindo os sintomas expressos pelo familiar que adoeceu. É como se ele tomasse para si esta história para compreendê-la e aceitar o seu papel como parte desta família. Muitas vezes, o cuidador assume o papel anteriormente exercido pelo doente, agora impossibilitado de fazê-lo.

Por isso ele tem que se cuidar e ter ajuda psicológica, pois como protagonista, ele não pode adoecer.

O que me surpreende a cada dia é que em vez de ensinar algo para o grupo, eu aprendo que não há regras a seguir, apenas lições a serem aprendidas.

O cuidador também é o protagonista desta história porque se ele estiver bem, o doente também estará. É como o espelho do doente, que perdeu sua identidade e introjeta o sentir do cuidador porque já não consegue se diferenciar do mundo ao seu redor.

Talvez esta seja a única regra a seguir – “se eu estiver bem, meu familiar doente também estará.”

No Grupoterapia também aprendi que casos que seguem em direção oposta às orientações dos manuais tradicionais, tiveram final feliz.

Exemplo 1: “Posso mudar de casa? O doente vai se adaptar à mudança?”

Se você estiver seguro de que é uma boa opção para você, amadureça a idéia com calma até que não tenha dúvida que será a melhor solução para você, familiar/cuidador.  Mude, pois seu doente sentirá confiança e ficará tranqüilo. Poderá até fazer perguntas, mas você saberá responder com tranqüilidade, pois acredita de verdade no que fez.

Porém, se a vontade de mudar for de outros familiares que não o principal cuidador, será difícil dar certo.

Exemplo 2: “Cuido de minha mãe durante a semana toda. Posso deixá-la nos finais de semana na casa de minhas irmãs?”

É difícil, é.  A mãe fica confusa, fica.  Vai chamar suas irmãs pelo seu nome.  Mas você precisa descansar, se cuidar, viver sua vida com sua própria família, marido, filhos.

Até que você tenha certeza que é o melhor para você, será difícil. Vai sentir culpa, provavelmente as irmãs irão enfatizar o quanto sua mãe chama seu nome, para se livrar do encargo e dizer como ela fica melhor com você. Mas não caia nessa chantagem emocional. Ninguém é insubstituível! Aos poucos você sentirá o benefício de cuidar-se para poder enfrentar melhor a semana e se sentirá mais segura. Com o tempo, sua mãe ficará mais tranqüila. Afinal, ela sabe que você sabe o que faz!

Estes são pequenos exemplos de como é importante trocar idéias, pedir ajuda, ir aos poucos tentando, nos erros e acertos, encontrando a sua maneira de lidar, que será única e adequada para aquele momento que está passando.

A decisão final sempre será sua!

7 de agosto de 2010

Como elaborar o turbilhão de sentimentos no convívio com o doente de Alzheimer?

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:54
 

Existe uma enorme dificuldade de mudar o foco do doente para si mesmo, de modo a olhar-se.

É como se a doença que atinge meu familiar ocupasse um espaço tão grande na minha própria vida, que nada mais restasse.

Seria muito sofrimento?

Seria uma maneira de eu ocultar meus próprios conflitos e problemas para que eles não mais existissem?  Como se eu tivesse me escondendo atrás da doença do meu familiar, como se ela fosse um escudo, uma defesa?

Então, todos os conflitos, as angústias, as incertezas, as inseguranças seriam creditadas ao fato de que eu tenho um familiar com demência. E este seria o foco de toda minha vida, assim eu teria a quem responsabilizar.

Como então buscar uma saída criativa para preservar-se, olhar-se, manter-se centrado diante de tantas exigências que a doença traz?

Na Grupoterapia da APAZ, continuamos tentando.

O “cuidar-se”, o entrar em contato com seus sentimentos, com sua intuição, a aceitação da raiva, da vergonha, do medo, da perda… Mas, nem sempre se consegue…

Difícil elaborar este turbilhão de sentimentos.

Tenho notado que o grupo tem recusado um trabalho mais verbal. Quando trazemos textos e pedimos que coloquem as idéias dentro de suas experiências e da realidade vivida por cada um, eles têm muita dificuldade. Procuramos então um trabalho menos verbal, estimulando os sentidos, a comunicação não verbal, o toque, o olhar, o movimento, o relaxamento, a visualização.

Algumas pessoas são mais sensíveis, outras mais racionais.

Não vou mudar para me adaptar à doença”.

“Tenho vergonha do olhar maluquinho da minha mãe”.

“Fico embaraçado com o comportamento e as atitudes da minha esposa na rua”.

“Não tenho paciência com as repetições do meu marido”.

Se voce já  pensou ou sentiu algo parecido,  SEJA BEM VINDO AO GÊNERO HUMANO!

Voce não está sozinho! Procure ajuda!

6 de agosto de 2010

As relações com os doentes com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 19:57
 

Nossas interferências nas reuniões da Grupoterapia com os familiares dos doentes com Alzheimer são sempre para reforçar o “cuidar de si mesmo” para poder cuidar melhor do seu doente. Estar bem para que o doente fique bem.

É preciso se preparar, para aceitar a doença e o que virá com ela. Algo que não sabemos o que será.

Percebemos diferenças na relação cuidador-doente, quando se trata de marido-mulher ou de mãe-filho (a) ou pai-filho (a).

Os filhos normalmente têm sua própria vida, seus próprios filhos, suas profissões, e não dedicam tempo integral para o pai ou mãe doentes. Isso lhes confere um espaço maior para respirar, arejar a cabeça e recuperar energias. Em geral, convocam irmãos e parentes para ajudar.

No entanto, temos no Grupo, filhos que não contam com ajuda de irmãos ou parentes, filhos que abandonam seus trabalhos e se aposentam precocemente para “Cuidar” de seu pai ou mãe doentes, filhos que trazem o doente para morar em suas casas ou que saem de suas casas para morar na casa do familiar doente, enfim, outras soluções que trazem transtornos e conflitos.

Qualquer que seja a alternativa do filho (a), adaptações e mudanças constantes serão necessárias para o convívio ser o menos estressante possível. Sem esquecer de cuidar primeiro de si mesmo para dar conta de cuidar do doente!

Na relação marido-mulher, quando um dos dois adoece, o espaço para respirar e arejar é menor, instala-se uma solidão enorme que há de ser trabalhada no Grupo no sentido de fazer com que o cônjuge sadio busque seu próprio espaço, suas atividades e outras relações para poder dar conta do bem estar do seu familiar doente. No início, quem está sadio tende a abandonar todas as suas atividades para cuidar do doente, como se estes cuidados exclusivos fossem apenas temporários. Com o passar do tempo, o cansaço e o desânimo se instalam e fica difícil manter a serenidade no relacionamento.

Há casos em que o membro sadio do casal continua vivendo a relação como se o outro não estivesse doente, tendo enorme dificuldade de aceitar que ele(a) não é mais o mesmo(a).

Claro que nestas relações existem exceções e combinações das mais variadas. Se foi uma relação de igual para igual, se foi uma relação de extrema dependência, ou de passividade, autoritarismo, enfim, uma enorme gama de variações. E para cada tipo de relação, as reações serão diferentes.

Lembro sempre de um casal de certa idade, cuja esposa estava com Alzheimer. O marido estava sempre ao seu lado, tinha um certo “Orgulho” de mostrar como cuidava bem da sua esposa e como ela estava bem atendida em suas necessidades.  Não pedia ajuda aos filhos, pois achava que era sua obrigação cuidar sozinho de sua esposa. Foi um custo convencê-lo a contratar uma acompanhante, depois que estressado foi parar na UTI de um hospital.  Na verdade, ele sentia muita culpa em relação ao seu passado com a esposa e necessitava resgatar esta culpa.

Outro casal, também com mais de cinquenta anos de casados, era o marido que estava com a doença. No início, a esposa viveu um caos verdadeiro, mas com ajuda das filhas e netos, foi superando e se adaptando. Nunca tinha cuidado das finanças da casa, nem tinha tomado decisões importantes na família. Aos poucos foi se tornando dona da situação e viveu a sensação de ser não a vítima, mas a autora de seu destino e de sua vida. Vendeu o apartamento onde moravam e foi para perto de uma das filhas, e pela primeira vez na vida pode escolher seus móveis e objetos de casa. Nada disso foi fácil, foi um processo de crescimento que ela vivenciou na Grupoterapia. Não tomou decisões por impulso, mas foi amadurecendo com ajuda do Grupo. Percebeu que se ela estivesse segura das decisões a tomar, seu marido reagiria bem, já que a segurança do doente depende da segurança do cuidador.

Como inverter os papéis, como mudar minha maneira de agir com meu familiar?

Se eu conseguir aceitar a mudança da pessoa doente, perceber que ela não é mais a mesma de antes, que está doente (embora nem sempre isso esteja claro, pois parece estar bem em alguns momentos), eu passo a compreender que esta outra pessoa demanda outra forma de relacionamento. Eu preciso mudar minha forma de me relacionar com ela, sempre me baseando nas dicas que ela me dá.

Há uma história de vida por trás disso tudo e uma longa história. Muitas vezes cheia de afetos positivos e negativos, de marcas boas e ruins, de situações mal resolvidas. Fica, portanto, difícil reprogramar uma nova relação. “Continuo vendo meu marido (minha mulher, meu pai, minha mãe…) como era antes, e  não me conformo que não é mais o mesmo”.

E para reconstruir uma nova relação é preciso reconhecer esta história de vida sem culpas e partir para um novo começo, para uma nova história. Não é fácil, mas se encararmos estas questões, e procurarmos aprender a cada dia, conquistaremos pequenas alegrias no convívio, que farão toda diferença no nosso dia a dia.