18 de setembro de 2010

O Comportamento do Doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 16:39
 

Os familiares dos doentes com Alzheimer tem sempre muitas queixas em relação ao comportamento do seu doente, e também em relação a como este comportamento difícil afeta sua própria vida e o relacionamento de ambos.

Muitos destes familiares também se queixam que os médicos e demais profissionais de saúde não tem tempo na consulta de ouvir as queixas referentes ao comportamento do paciente, preocupados apenas com a cognição e os sintomas do paciente.

“O relato do comportamento do paciente e das Atividades da Vida Diária são muito importantes para avaliar a eficiência do tratamento prescrito pelo médico.”  Depois de muitos anos na APAZ, Associação de Parentes e Amigos dos Doentes com Alzheimer, em 2009, ouvi esta frase numa palestra feita por um Médico.

Portanto, o Médico deve ouvir pacientes e cuidadores, pois este desfecho clínico vai ser relevante.

O Médico deve também estimular cuidadores a fazerem relatos detalhados de como se sentem, pois a qualidade de vida do cuidador é fundamental para a qualidade de vida do paciente.

Qualidade de Vida tem, então, uma conotação ampla, no caso da Doença de Alzheimer:

  • Os pacientes avaliam como se sentem.
  • Os cuidadores avaliam a sua própria qualidade de vida.
  • Os cuidadores avaliam a qualidade de vida do paciente.

Com os resultados, o médico pode avaliar se o tratamento está funcionando ou se há algo a ser modificado. Estas informações são fundamentais na consulta médica. Se o seu médico não “escuta” voce,  diz “é assim mesmo, voce tem que aguentar”, talvez esteja na hora de procurar outro.

No entanto, é muito importante observar que os transtornos de comportamento tem sempre consequências. Toda AÇÃO gera uma REAÇÃO. Prestar atenção nos moduladores e nos ativadores do comportamento do seu paciente. Se observar bem, conhecer bem a história do seu paciente, o que gosta e o que não gosta, vai evitar muitos transtornos de comportamento.

O que acalma meu familiar doente?

O que agita meu familiar doente?

Cuidar em casa ou Internar o doente com Alzheimer? (III)

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:33
 

Prosseguindo com este tema que é bastante polêmico, vamos também colocar exemplos daqueles que optaram por cuidar de seu familiar com Alzheimer em casa.

Exemplo 1: Filha única pediu aposentadoria para poder cuidar da mãe com Alzheimer. Não tinha idéia naquele momento que a doença duraria muitos anos. Alugou seu apartamento, onde morava com marido e filhos para morar com a mãe. Seguia as instruções que havia recebido do médico, de que a mãe não deveria mudar de casa e precisaria de acompanhamento 24 horas.

Foram anos de experiências diversas, com acompanhantes, empregadas, dificuldades  com sua própria família, falta total de privacidade e muito estresse. Ela não tinha mais vida própria, pois com dificuldade de delegar tarefas para as acompanhantes, acabava sobrecarregada. O relacionamento com a mãe era dificultado, pois ela estava sempre estressada e tensa.

Após muita reflexão e troca de experiências com outros participantes do grupo, no Grupoterapia da APAZ, decidiu montar um esquema na casa da mãe com as acompanhantes e voltar a morar na própria casa com sua família. Visitava a mãe diariamente, acompanhava tudo de perto, mas depois podia voltar para sua casa, seu canto e dar andamento a sua vida. Trabalhamos muito com ela que não largasse suas atividades, que buscasse arejar sua cabeça e ficasse fortalecida para poder lidar com doença da mãe. Nas idas a casa da mãe, o seu humor estava mais leve, aproveitava mais a companhia da mãe para compartilhar momentos bons, de carinho e afeto.

Exemplo 2: Esposa cuida do marido que tem Alzheimer + Parkinson em casa, há 8 anos. Tem empregada antiga e duas acompanhantes se revezam para ajudá-la. Apesar de ter mais de 70 anos, não deixou suas atividades extra lar em nenhum momento. Cultiva seu grupo de amigas, vai ao teatro, cinema, passeios, faz atividade física e Psicoterapia.

No início da doença do marido, viajava com ele e passeava bastante, visitando parentes e filhos. Com o agravamento da doença, ela ficava muito preocupada em não levá-lo com ela, sentia culpa, saía, mas ligava toda hora pra casa. Trabalhamos estes aspectos com ela no Grupoterapia e aos poucos, ela foi encarando este novo desafio com mais tranquilidade, pois como a doença progride, os ajustes são necessários e constantes.

Cada um, ao seu modo, de acordo com sua história de vida, seus costumes, suas condições financeiras, suas atividades, vai encontrar a melhor maneira de cuidar do seu familiar com Alzheimer. Não há regras, nem “melhores práticas”.

Se você estiver bem, seu familiar estará bem!

13 de setembro de 2010

“Estou com raiva do meu familiar com Alzheimer!”

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:03
 

Início do Grupoterapia com familiares de doentes com Alzheimer, “aquecimento” do grupo com relaxamento.  Música, bolinha para auto massagem. Procurar ponto de dor no corpo, ponto com energia acumulada que precisa ser liberada. Massagear este ponto com a bolinha. Ouça a música, feche os olhos, respire…preste atenção na sua respiração…

Falamos das facilidades e das dificuldades para relaxar. Como uns conseguem se concentrar, se entregar ao relaxamento, enquanto outros não conseguem desligar os pensamentos, a razão. É sempre difícil para alguns admitir suas próprias dificuldades.

Após o relaxamento, logo surge o tema do dia, num corajoso desabafo:

“Estou com muita raiva da minha mãe!”

Dificuldades para aceitar a doença, depressão por ver a mãe assim tão esquecida, desatinada.  Estresse de ter que cuidar dos mínimos detalhes, de não poder sair, sentir-se presa a esta situação.  Dificuldades para dormir, ter que tomar remédios e, então, sentir-se mal por tudo isso.

“Fico com tanta raiva!”

No meio de soluços e até ânsia de vômito, o desabafo de tanta coisa acumulada, entalada, saiu de maneira intensa.

O grupo, perplexo por um lado, identificado por outro, acolheu o sentimento da colega com afeto.

Depois de acalmá-la, falamos de raiva, de descontrole emocional. De como o copo dágua transborda quando não falamos o que sentimos e vamos acumulando tantas emoções dentro de nós.

Como é importante perceber o que estamos sentindo! Entrar em contato com o sentimento, com a emoção, sem julgar se é bom ou ruim, se é certo ou errado. Apenas sentir, parar e perceber esta emoção. Respirar e observar a si mesmo, aceitar que é ser humano e que tem emoções de ser humano. Aos poucos a tempestade vai passando e o nosso céu se acalmando, as estrelas aparecendo.

Com a cabeça mais fria, podemos nos olhar de novo e compreender melhor o que está se passando. Sem se culpar por sentir raiva, mas podendo transformar esta raiva num desafio, num motivo para mudar.

Perguntando-se de novo:

O que eu preciso aprender com tudo isso? O que esta raiva está querendo me dizer?

8 de setembro de 2010

Cuidar em casa ou Internar o doente com Alzheimer? (II)

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 12:51
 

Voltando ao assunto, é da maior importância ressaltar que tanto em casa como na Instituição, o doente com Alzheimer não pode ser isolado, abandonado do contato afetivo com seus queridos.

Um Geriatra de uma participante do Grupoterapia, ao conversar com ela sobre o provável diagnóstico de Alzheimer de seu marido, recomendou que ela assistisse o filme “O Filho da Noiva”.

O filme “O Filho da Noiva”, que recomendo a todos que ainda não viram, nos conta uma história de amor, embora a esposa com Alzheimer estivesse internada numa Instituição, pois o marido não tinha condições de cuidar dela

Portanto, não importa onde esteja o doente com Alzheimer, mas a maneira como é tratado. Com amor e dignidade. E este amor vai depender muito do limite de cada um, da história de vida do familiar com seu doente, dos resgates que precisam ser feitos nestas famílias, enfim, nada simples, mas possível.

Exemplo 1 – Muitos filhos, mãe com Alzheimer,  família de trabalhadores.  Uma das  filhas, à princípio, parou de trabalhar para cuidar da mãe, desconhecendo que a doença poderia durar muitos anos. Com o tempo, sentia falta de seu trabalho, de sua vida pessoal, ficava estressada e perdia a paciência com facilidade.  Não tinham condições financeiras de contratar cuidadores profissionais. Depois que começou a ter mais informações sobre a doença de Alzheimer e a frequentar o Grupoterapia, fez uma reunião com seus irmãos. Decidiram que ela deveria retornar à sua vida, pois era jovem ainda, e todos os irmãos se uniriam para buscar um local onde a mãe pudesse ficar, dentro de suas possibilidades financeiras e todos ajudariam a pagar. E assim foi feito, escolheram um local onde poderiam visitar a qualquer hora, sem imposição de Horários de Visita. Faziam revezamento nas visitas, de modo a supervisionar o trabalho da instituição e dar a necessária atenção e carinho à mãe, sem abandoná-la.

Exemplo 2 - Esposa com Alzheimer. O marido aposentado cuidava dela em casa, tinha uma ajudante. Os filhos tinham suas famílias e trabalhavam, visitando o casal eventualmente nos finais de semana e nas festividades. Com o tempo, ele foi ficando muito estressado e chegou a ter dois enfartes, baixando na UTI por duas vezes. Tinha pressão alta e diabetes. Resistia muito à institucionalizar a esposa, pois sentia culpa em abandoná-la. No entanto, aos poucos foi aceitando a idéia de institucionalizá-la, e passava parte do dia com ela, inclusive fazendo suas refeições na Casa de Convivência. Assim pode cuidar melhor de sua saúde, sem a pressão e o estresse que sentia antes.

Cuidar em casa ou Internar o doente com Alzheimer? (I)

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 12:04
 

Quando comecei a frequentar as Reuniões Mensais na APAZ, no ano de 2002, os profissionais de saúde e familiares falavam muito em cuidar do doente em casa. Era sempre enfatizada esta postura, pois acreditava-se que seria o melhor para o doente.

Também falava-se muito em como a família teria que dar muito amor e carinho para o seu familiar, pois o afeto era essencial para que o doente tivesse uma qualidade de vida melhor.

Eu observava as pessoas e questionava no meu íntimo se esta postura tão “perfeita”, este nível de exigência tão alto, não trazia muita culpa para as famílias.

Depois que iniciamos o Grupoterapia na APAZ, aos poucos, os familiares traziam para o grupo o fato de se sentirem muito culpados por não corresponderem às expectativas dos médicos, dos profissionais de saúde, e dos manuais em relação aos cuidados com seu familiar com Alzheimer.

Alguns ficavam muito estressados com a administração dos cuidadores profissionais em suas casas ou na casa do familiar com Alzheimer; outros, conseguiam bons e carinhosos cuidadores profissionais; uns, abandonaram seus trabalhos para dedicação exclusiva ao familiar doente; outros, sentiam-se completamente sem espaço para continuar suas vidas.

Começamos a compreender, que era importante pensar no assunto “Institucionalizar”, como solução para alguns casos, mas nunca para todos. Era preciso falar sobre o assunto, e esgotar as possibilidades de cada um, de cada caso.

Ao falarmos do assunto cuidar em casa ou institucionalizar, dúvida de muitos familiares, uma participante do Grupoterapia falou que defendia o cuidar em casa, mas que com o tempo,  ouvindo o ponto de vista de outros familiares, aprendeu a não julgar quem decide institucionalizar seu familiar.

Foi um grande crescimento, pois é importante compreendermos que cada caso é um caso, que existem diferenças entre as pessoas e que temos que respeitar tais diferenças. Existe preconceito ainda, pois confunde-se asilar com isolar.

Há prós e contras tanto no cuidar em casa como no internar numa Casa de Repouso, mas cada família vai analisar sua própria situação, sem precipitação nem preconceitos e chegar a melhor solução possível.

Se a situação for bem amadurecida, a decisão surgirá sem culpa.. E surgirá de dentro do seu coração… da sua consciência… que saberá que aquela é a melhor decisão naquele momento.

4 de setembro de 2010

Dia Mundial da Doença de Alzheimer – 21 de setembro

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 18:44
 

No dia 21 de setembro, no mundo todo, as Associações de Alzheimer comemoram o Dia Mundial da Doença de Alzheimer.

O objetivo principal desta data é a conscientização do que é a Doença de Alzheimer, divulgando informações à  população em geral, e aos cuidadores e familiares em particular.

A APAZ – www.apaz.org.br, preparou um evento especial para esta data, com inscrição gratuita. No entanto, quem doar um pacote de fralda geriátrica tamanhos M ou G, ganhará uma camiseta do evento.

O tema deste ano é “Demência – é Tempo de Ação”.

O evento será no Auditório da ABI, Rua Araújo Porto Alegre 71 – Centro.

Vale a pena conferir a programação completa no site da APAZ, basta clicar no link ao lado.

1 de setembro de 2010

Temores compartilhados pelos familiares dos doentes com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:39
 

No encontro dos familiares dos doentes com Alzheimer, no Grupoterapia da APAZ,  alguém mencionou preocupação por estar perdendo a memória, já que a mãe tem Alzheimer.

Falamos do estresse, das preocupações, da quantidade de informação que temos disponível, e da rapidez com que as coisas mudam. Todos estes fatores nos levam a esquecimentos.

Uma companheira de grupo trouxe o artigo da Martha Medeiros, da Revista de Domingo, Jornal O Globo, de 15/03/2009, “Baderna Cerebral”.  Falava dos nossos esquecimentos, brancos, bobeiras, não como coisas da idade, mas como resultado desta avalanche de informações que podem estar massacrando nosso cérebro.

De novo mencionamos o estresse emocional e físico que a doença do nosso familiar nos traz, além de todos os fatores mencionados no artigo.

Foi bom discutirmos o assunto, dando espaço para que o grupo pudesse expressar seus temores. O fantasma da doença de Alzheimer está sempre rondando os familiares.

A sobrecarga e o cansaço que a doença nos traz foram colocados em destaque, sendo uma impossibilidade de se atingir a paz interior. Mas será?

Se eu aceitar a doença verdadeiramente, será que não vai ser possível desenvolver uma tolerância maior? Um jogo de cintura mais amplo?

O que é que incomoda tanto?

Por que me cuidar é tão difícil?

Por que o estresse faz meu corpo adoecer?

Coloquei muitas perguntas para o grupo pensar.

Sabemos que não é fácil.

Cuidar do seu familiar, mas sem deixar de se olhar, se perceber, ter seu próprio espaço.

Se ligarmos o piloto automático, provavelmente seremos atropelados pela doença, pelo estresse e nosso corpo vai expressar suas dores.

Nas horas difíceis é preciso fazer o exercício de parar, se perguntar o que está sentindo, e tomar consciência de modo a interromper a resposta automática.

Não é exercício fácil, mas com o tempo sua atitude vai mudando.

Na hora de finalizar o grupo, a grande surpresa! Estávamos abraçadas, em círculo, música suave tocando…e a conversa continuou. O grupo então expressou o que estava lá no fundo:

“Não quero viver demais”, “Duvido que meus filhos cuidem de mim, se eu adoecer, do mesmo modo que cuido da minha mãe”, “Quero ir para uma casa de convivência”, “Não quero dar trabalho para meus filhos”, “Será que vou morrer antes do que meu marido?”

O clima foi de comoção geral.  Bem vindos ao  gênero humano! Importante poder expressar seus sentimentos!