Desde o ano de 2002 lidando com familiares de doentes com Alzheimer, aos poucos fui me interessando em perguntar às pessoas da família, como era a personalidade e o temperamento do doente antes de aparecerem os primeiros sintomas da Doença de Alzheimer.
E fui colecionando os dados informalmente ao longo deste tempo, e percebendo que a grande maioria das pessoas que foram diagnosticadas com Alzheimer tinha características de personalidade semelhantes.
Foram descritas como pessoas ¨autoritárias¨, ¨inflexíveis¨, ¨donas da verdade¨, ¨mandonas¨, ¨rígidas¨,¨ com dificuldades de expressar a afetividade¨,¨secas¨,¨duras¨.
Essas pessoas, com o desenvolvimento da Doença de Alzheimer, tiveram estas características de personalidade exacerbadas e tornaram-se os doentes difíceis de lidar nas fases iniciais da Doença.
Eles simplesmente não aceitavam o comando do familiar cuidador, nem sua interferência dando ordens do que deviam fazer. Era difícil impedí-los de sairem sozinhos, era difícil tirar o cartão do Banco e administrar a conta bancária deles, era difícil impedí-los de dirigir o carro, etc…
A vida do familiar cuidador, nesta fase torna-se muito complicada porque os conflitos são enormes. É necessário ter muita paciência e não ¨bater de frente¨com o doente. Sabemos que nem sempre isso é possível!
Mas, tudo passa…
Chega o momento em que a Doença de Alzheimer se agrava...Parece que o doente com Alzheimer sabe de alguma maneira que precisa do familiar cuidador, precisa que cuidem dele.
Nesta etapa, muitos são os relatos de familiares e cuidadores da mudança daquelas características fortes. O doente com Alzheimer passa a ficar mais calmo, mais dócil, por vezes mais carinhoso, aceita que cuidem do seu dinheiro e da sua vida.
Vai ficando cada vez mais fácil cuidar dele, já que a Doença vai progressivamente fazendo seu caminho e fica muito claro o declínio das funções cognitivas e da capacidade para administrar as atividades de vida diária.
Vai também ficando mais fácil para o familiar cuidador estabelecer uma nova relação com seu doente, muitas vezes resgatando o afeto, o carinho, o abraço, solucionando os conflitos anteriores, a raiva sentida tantas vezes, as mágoas guardadas…
