30 de janeiro de 2011

Personalidade do Doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 18:02
 

Desde o ano de 2002 lidando com familiares de doentes com Alzheimer, aos poucos fui me interessando em perguntar às pessoas da família, como era a personalidade e o temperamento do doente antes de aparecerem os primeiros sintomas da Doença de Alzheimer.

E fui colecionando os dados informalmente ao longo deste tempo, e percebendo que a grande maioria das pessoas que foram diagnosticadas com Alzheimer tinha características de personalidade semelhantes.

Foram descritas como pessoas ¨autoritárias¨, ¨inflexíveis¨, ¨donas da verdade¨, ¨mandonas¨, ¨rígidas¨,¨ com dificuldades de expressar a afetividade¨,¨secas¨,¨duras¨.

Essas pessoas, com o desenvolvimento da Doença de Alzheimer, tiveram estas características de personalidade exacerbadas e tornaram-se os doentes difíceis de lidar nas fases iniciais da Doença.

Eles simplesmente não aceitavam o comando do familiar cuidador, nem sua interferência dando ordens do que deviam fazer. Era difícil impedí-los de sairem sozinhos, era difícil tirar o cartão do Banco e administrar a conta bancária deles, era difícil impedí-los de dirigir o carro, etc…

A vida do familiar cuidador, nesta fase torna-se muito complicada porque os conflitos são enormes. É necessário ter muita paciência e não ¨bater de frente¨com o doente. Sabemos que nem sempre isso é possível!

Mas, tudo passa…

Chega o momento em que a Doença de Alzheimer se agrava...Parece que o doente com Alzheimer sabe de alguma maneira que precisa do familiar cuidador, precisa que cuidem dele.

Nesta etapa, muitos são os relatos de familiares e cuidadores da mudança daquelas características fortes. O doente com Alzheimer passa a ficar mais calmo, mais dócil, por vezes mais carinhoso, aceita que cuidem do seu dinheiro e da sua vida.

Vai ficando cada vez mais fácil cuidar dele, já que a Doença vai progressivamente fazendo seu caminho e fica muito claro o declínio das funções cognitivas e da capacidade para administrar as atividades de vida diária.

Vai também ficando mais fácil para o familiar cuidador estabelecer uma nova relação com seu doente, muitas vezes resgatando o afeto, o carinho, o abraço, solucionando os conflitos anteriores, a raiva sentida tantas vezes, as mágoas guardadas…

29 de janeiro de 2011

Reflexões sobre o Aparecimento da Doença de Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 10:20
 

No início da Doença de Alzheimer, a manifestação dos sintomas é leve, quase imperceptível.  As pessoas que convivem com o doente confundem os sintomas iniciais com a exarcebação de comportamentos conhecidos e características de personalidade habituais.

¨Ah! Ele sempre foi assim esquecido!¨, ¨Minha mãe sempre foi distraída!¨, ¨Ela nunca sabia onde guardava as coisas e deixava todos em casa loucos, procurando!¨, ¨Ele repetia as mesmas histórias e esquecia que já havia nos contado!¨

Outras vezes, os familiares insistiam que os sintomas eram da ¨VELHICE¨. Por pura falta de informação, ou mesmo, porque o médico disse que: ¨É assim mesmo, é a idade.¨

Mas, na maioria dos casos, há um acontecimento marcante, que parece ser a gota d’água para percebermos que há um problema com aquela pessoa, embora ainda não saibamos exatamente o que é.  Os exemplos são vários: saiu para passear com o cachorro e não sabia voltar pra casa; telefonou para a filha 15 vezes repetindo o mesmo recado; o dinheiro da conta sumiu e a pessoa não sabe explicar o que houve; as contas se acumularam na gaveta e foram esquecidas; não consegue mais se interessar nem confeccionar seus tricôs, nos quais era expert; esqueceu a panela no fogo e não lembrou do fato…

Os sintomas vão ficando cada vez mais nítidos e a dúvida aumenta a respeito do que estará acontecendo.

É hora de procurar ajuda!

Não tenho dados estatísticos, nem de pesquisa formal, mas no dia a dia com os familiares dos doentes com Alzheimer, noto que a grande maioria vivenciou uma perda significativa, um trauma ou tragédia, um tempo antes dos primeiros sintomas aparecerem. E que estas pessoas não conseguiram elaborar esta perda ou trauma, não ressignificaram o que aconteceu buscando um novo sentido, uma maneira de compreender o que ocorreu.

Seria como se a doença fosse a resposta para expressar a dor sentida, o trauma não resolvido, a tragédia vivenciada e não compreendida. É o emocional, inconsciente respondendo, não o racional.

O Dr Jacob Guterman, fundador da APAZ, contava que sua esposa, dentista como ele, sofreu um assalto  e presenciou a morte de uma pessoa em seu consultório, não querendo ir mais pra lá. Este episódio antecedeu o aparecimento dos primeiros sintomas da Doença de Alzheimer, aos 54 anos de idade.

Todos nós passamos por perdas, traumas, obstáculos na vida. E diante de qualquer sofrimento, temos dois caminhos: ser a vítima ou o herói de nossa história.

O neuropsiquiatra e psicanalista frances Boris Cyrulnik desenvolveu um termo emprestado da Física, a resiliência, para o estudo do comportamento humano. A resiliência seria a capacidade de um indivíduo retomar a vida depois de um grande trauma. Para ele, a resiliência depende de muitos fatores, entre eles, o afeto, o sentido e o tempo que cura feridas.

18 de janeiro de 2011

Autoboicote do familiar\cuidador do doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 16:15
 

O autoboicote não é privilégio do familiar\cuidador do doente com Alzheimer.

De uma forma ou de outra, todos nós nos boicotamos tanto em nossa vida pessoal como na vida profissional.

No entanto, nos encontros do Grupoterapia da APAZ, com os familiares dos doentes com Alzheimer, vivenciei inúmeras vezes o autoboicote.

Mas, o que seria o autoboicote?

O autoboicote é uma constante repetição de comportamentos, pensamentos e atitudes contra nós mesmos, mas que se dão de uma forma inconsciente.

Provavelmente fazemos isso por medo de mudar, ou por baixa autoestima, ou porque queremos corresponder às expectativas dos outros, ou por culpa, ou por insegurança….

Quando a ficha começa a cair, se quisermos prestar atenção ao que fazemos,  percebemos algo e falamos: De novo voce vai agir assim? Outra vez? Às vezes, alguém até nos alerta que estamos repetindo o mesmo comportamento, mas nem sempre conseguimos ouvir, porque talvez ainda não seja o nosso tempo de compreender.

Tentamos trabalhar com o grupo o autoboicote, pois de algum modo eu já vinha falando do assunto para algumas pessoas do grupo. O exemplo mais marcante ocorria quando as pessoas não estavam bem e faltavam aos encontros. Isto é, quando eu mais preciso ir a Terapia, arranjo uma desculpa e não vou. E começamos a brincar carinhosamente com a palavra BOICOTE.

Durante um encontro escrevi no quadro:  EU ME BOICOTO SEMPRE QUE… e pedi que cada um completasse a frase.

Num primeiro momento, senti certa perplexidade e começaram uma conversa para compreender o significado de BOICOTE, até que alguém no grupo falou: ¨Desculpa que dou para não fazer coisas boas e saudáveis para mim mesma¨.

Logo seguiram-se outros comentários: ¨Prioridade aos outros em prejuízo de si próprio¨, ¨dificuldade em priorizar seu bem estar, seu cuidado consigo mesmo¨, ¨dificuldade de dizer não¨, ¨cuido tanto do meu familiar doente que não tenho tempo pra nada, nem para vir ao grupo¨, ¨não tenho tempo de ir à ginástica¨ e ¨marco consultas médicas e exames exatamente no dia da semana e no horário do Grupoterapia¨.

Importante é se observar para poder perceber as repetições que são contra nós mesmos, que nos impedem de crescer, evoluir e estar de bem com a vida.

Preste atenção nas DESCULPAS que voce dá a si mesmo e aos outros! E não ponha a responsabilidade no seu familiar doente com Alzheimer.