7 de agosto de 2010

Como elaborar o turbilhão de sentimentos no convívio com o doente de Alzheimer?

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:54
 

Existe uma enorme dificuldade de mudar o foco do doente para si mesmo, de modo a olhar-se.

É como se a doença que atinge meu familiar ocupasse um espaço tão grande na minha própria vida, que nada mais restasse.

Seria muito sofrimento?

Seria uma maneira de eu ocultar meus próprios conflitos e problemas para que eles não mais existissem?  Como se eu tivesse me escondendo atrás da doença do meu familiar, como se ela fosse um escudo, uma defesa?

Então, todos os conflitos, as angústias, as incertezas, as inseguranças seriam creditadas ao fato de que eu tenho um familiar com demência. E este seria o foco de toda minha vida, assim eu teria a quem responsabilizar.

Como então buscar uma saída criativa para preservar-se, olhar-se, manter-se centrado diante de tantas exigências que a doença traz?

Na Grupoterapia da APAZ, continuamos tentando.

O “cuidar-se”, o entrar em contato com seus sentimentos, com sua intuição, a aceitação da raiva, da vergonha, do medo, da perda… Mas, nem sempre se consegue…

Difícil elaborar este turbilhão de sentimentos.

Tenho notado que o grupo tem recusado um trabalho mais verbal. Quando trazemos textos e pedimos que coloquem as idéias dentro de suas experiências e da realidade vivida por cada um, eles têm muita dificuldade. Procuramos então um trabalho menos verbal, estimulando os sentidos, a comunicação não verbal, o toque, o olhar, o movimento, o relaxamento, a visualização.

Algumas pessoas são mais sensíveis, outras mais racionais.

Não vou mudar para me adaptar à doença”.

“Tenho vergonha do olhar maluquinho da minha mãe”.

“Fico embaraçado com o comportamento e as atitudes da minha esposa na rua”.

“Não tenho paciência com as repetições do meu marido”.

Se voce já  pensou ou sentiu algo parecido,  SEJA BEM VINDO AO GÊNERO HUMANO!

Voce não está sozinho! Procure ajuda!

6 de agosto de 2010

As relações com os doentes com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 19:57
 

Nossas interferências nas reuniões da Grupoterapia com os familiares dos doentes com Alzheimer são sempre para reforçar o “cuidar de si mesmo” para poder cuidar melhor do seu doente. Estar bem para que o doente fique bem.

É preciso se preparar, para aceitar a doença e o que virá com ela. Algo que não sabemos o que será.

Percebemos diferenças na relação cuidador-doente, quando se trata de marido-mulher ou de mãe-filho (a) ou pai-filho (a).

Os filhos normalmente têm sua própria vida, seus próprios filhos, suas profissões, e não dedicam tempo integral para o pai ou mãe doentes. Isso lhes confere um espaço maior para respirar, arejar a cabeça e recuperar energias. Em geral, convocam irmãos e parentes para ajudar.

No entanto, temos no Grupo, filhos que não contam com ajuda de irmãos ou parentes, filhos que abandonam seus trabalhos e se aposentam precocemente para “Cuidar” de seu pai ou mãe doentes, filhos que trazem o doente para morar em suas casas ou que saem de suas casas para morar na casa do familiar doente, enfim, outras soluções que trazem transtornos e conflitos.

Qualquer que seja a alternativa do filho (a), adaptações e mudanças constantes serão necessárias para o convívio ser o menos estressante possível. Sem esquecer de cuidar primeiro de si mesmo para dar conta de cuidar do doente!

Na relação marido-mulher, quando um dos dois adoece, o espaço para respirar e arejar é menor, instala-se uma solidão enorme que há de ser trabalhada no Grupo no sentido de fazer com que o cônjuge sadio busque seu próprio espaço, suas atividades e outras relações para poder dar conta do bem estar do seu familiar doente. No início, quem está sadio tende a abandonar todas as suas atividades para cuidar do doente, como se estes cuidados exclusivos fossem apenas temporários. Com o passar do tempo, o cansaço e o desânimo se instalam e fica difícil manter a serenidade no relacionamento.

Há casos em que o membro sadio do casal continua vivendo a relação como se o outro não estivesse doente, tendo enorme dificuldade de aceitar que ele(a) não é mais o mesmo(a).

Claro que nestas relações existem exceções e combinações das mais variadas. Se foi uma relação de igual para igual, se foi uma relação de extrema dependência, ou de passividade, autoritarismo, enfim, uma enorme gama de variações. E para cada tipo de relação, as reações serão diferentes.

Lembro sempre de um casal de certa idade, cuja esposa estava com Alzheimer. O marido estava sempre ao seu lado, tinha um certo “Orgulho” de mostrar como cuidava bem da sua esposa e como ela estava bem atendida em suas necessidades.  Não pedia ajuda aos filhos, pois achava que era sua obrigação cuidar sozinho de sua esposa. Foi um custo convencê-lo a contratar uma acompanhante, depois que estressado foi parar na UTI de um hospital.  Na verdade, ele sentia muita culpa em relação ao seu passado com a esposa e necessitava resgatar esta culpa.

Outro casal, também com mais de cinquenta anos de casados, era o marido que estava com a doença. No início, a esposa viveu um caos verdadeiro, mas com ajuda das filhas e netos, foi superando e se adaptando. Nunca tinha cuidado das finanças da casa, nem tinha tomado decisões importantes na família. Aos poucos foi se tornando dona da situação e viveu a sensação de ser não a vítima, mas a autora de seu destino e de sua vida. Vendeu o apartamento onde moravam e foi para perto de uma das filhas, e pela primeira vez na vida pode escolher seus móveis e objetos de casa. Nada disso foi fácil, foi um processo de crescimento que ela vivenciou na Grupoterapia. Não tomou decisões por impulso, mas foi amadurecendo com ajuda do Grupo. Percebeu que se ela estivesse segura das decisões a tomar, seu marido reagiria bem, já que a segurança do doente depende da segurança do cuidador.

Como inverter os papéis, como mudar minha maneira de agir com meu familiar?

Se eu conseguir aceitar a mudança da pessoa doente, perceber que ela não é mais a mesma de antes, que está doente (embora nem sempre isso esteja claro, pois parece estar bem em alguns momentos), eu passo a compreender que esta outra pessoa demanda outra forma de relacionamento. Eu preciso mudar minha forma de me relacionar com ela, sempre me baseando nas dicas que ela me dá.

Há uma história de vida por trás disso tudo e uma longa história. Muitas vezes cheia de afetos positivos e negativos, de marcas boas e ruins, de situações mal resolvidas. Fica, portanto, difícil reprogramar uma nova relação. “Continuo vendo meu marido (minha mulher, meu pai, minha mãe…) como era antes, e  não me conformo que não é mais o mesmo”.

E para reconstruir uma nova relação é preciso reconhecer esta história de vida sem culpas e partir para um novo começo, para uma nova história. Não é fácil, mas se encararmos estas questões, e procurarmos aprender a cada dia, conquistaremos pequenas alegrias no convívio, que farão toda diferença no nosso dia a dia.

4 de agosto de 2010

Doente com Alzheimer pode ficar sozinho em casa?

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:09
 

Hoje na Grupoterapia, a mãe de um familiar teve uma isquemia. Foi um susto muito grande, pois pensou que a mãe fosse morrer.

O médico disse que esses episódios são comuns na doença de Alzheimer.

Tivemos notícia de outro familiar participante da Grupoterapia, cuja esposa teve um “desmaio”, caiu e machucou-se.

Outra familiar relatou que a mãe já teve, por duas vezes, perda dos sentidos – uma espécie de ausência.

O grupo todo se mobilizou com os relatos, pois há familiares que deixam seu doente sozinho em casa. Instalou-se o receio de que um episódio desses pode acontecer de repente, e não ter ninguém para acudir o doente.

Como se preparar para enfrentar todas essas adversidades? Ouvimos algumas histórias e algo ficou no ar: “Não estou preparada!”

Porém, um fato ficou bem claro: é perigoso deixar o doente sozinho em casa, pois por melhor que ele pareça estar, sempre poderá ocorrer algum episódio inesperado.

No entanto, nem todas as pessoas tem disponibilidade financeira de ter um acompanhante para seu doente. Mas, mesmo assim, é preciso encontrar uma solução, uma resposta adequada para cada família, de modo que um único membro não fique sobrecarregado com os cuidados que o doente com Alzheimer necessita em cada fase da doença.

Veio à tona também a discussão sobre o doente sair sozinho, caminhar sozinho na praia, ir até a padaria, enfim, fazer trajetos conhecidos.

Alguém lembrou que um certo dia, quando a mãe levou o cachorro pra passear, como fazia todos os dias, não encontrou o caminho de volta para casa, e por sorte, pessoas conhecidas do bairro ajudaram-na. Foi desta forma que a família percebeu que havia algo de errado.

A necessidade de ter sempre uma identificação junto ao doente foi reforçada pelo grupo. Pode ser um cartão com telefone no bolso, uma placa pendurada num cordão ( como dos soldados), um telefone escrito com pilot na mão, enfim,  qualquer idéia é bem vinda.

Apesar das vivências dolorosas e inquietadoras trazidas, tivemos uma comemoração de aniversário.  De novo, Vida X Morte.

Há sempre uma mistura de sentimentos no grupo, tal qual na vida. Procuramos acessa-los todos, reforçando sempre a força, a energia, a fé e a valorização dos aspectos bons, mantendo pensamentos positivos.

1 de agosto de 2010

A família do doente com Alzheimer adoece também?

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 12:41
 

Ir ao neurologista, geriatra, psiquiatra, fisioterapeuta, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, nutricionista, musicoterapeuta… OK, levo meu familiar para os diversos profissionais de saúde.  Ele está doente, ele precisa ser tratado eu não preciso.

A demência desestrutura toda a família. Quando tudo parecia estar bem, vem a doença e aparecem os conflitos, que antes descansavam debaixo do tapete.

É frequente a resistência da família em buscar ajuda para si mesma, já que não se considera doente.  Resistência em buscar apoio, tratamento psicológico, em cuidar-se, tratar dos seus sentimentos e emoções, das suas dificuldades. Reunir-se para dividir cuidados, para buscar soluções.

Não é fácil aceitar a doença de seu familiar, elaborar as perdas que ocorrem diariamente, até o ponto de não reconhecer mais naquele sujeito, a pessoa com quem você conviveu tantos anos, tal a devastação que a doença provoca. É como se a pessoa morresse um pouco a cada dia. Mas, não conseguimos sair do circulo vicioso, repetindo todos os dias o mesmo comportamento, reagindo ao doente como se ele estivesse são, como se ele conseguisse raciocinar com lógica.

Os relatos que escutamos dos familiares são repetições contínuas do mesmo comportamento em relação ao doente, dos mesmos diálogos, das mesmas histórias.

Até que chega o momento que na Psicoterapia, depois de repetir inúmeras vezes a sua fala sem se dar conta, o familiar passa a escutar sua própria fala e a ter uma consciência maior dos seus atos, conseguindo sair do piloto automático para ter a possibilidade de encontrar soluções mais criativas para seu conflito diário.

“Não compartilhamos das dores dos outros”.

Cada um responde a dor de sua própria maneira. Esta experiência nos mostra como estamos separados uns dos outros.

No entanto, a Psicoterapia pode ajudar o familiar a se ver mais interiormente, a se compreender, se aceitar para estar com o outro de forma mais harmônica e humana.

A força motivadora para iniciar na Grupoterapia é o sofrimento do familiar, que sozinho não se basta, não dá conta.

Humanizar não é só uma mudança na estrutura física. Muitas vezes, ao se falar de qualidade de vida, privilegia-se apenas a estrutura física.

Os profissionais de saúde devem estar atentos a este conceito, procurando vivenciá-lo em sua prática diária.

O que é humanizar?

1 – É dar afeição e condição humana.

2 – É aprimorar a atenção à família.

Por vezes, o avanço tecnológico não acompanha o desenvolvimento humano.

Tarefa do psicólogo

Oferecer ao familiar uma possibilidade de ressignificar e elaborar seu sofrimento para tomar outra posição no seu cotidiano junto ao seu doente.

Uma possibilidade de mudança. Mas para MUDAR é preciso CORAGEM!

30 de julho de 2010

O ir e vir na Grupoterapia com familiares dos doentes com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 11:18
 

Num primeiro momento, todos querem falar, desabafar, colocar pra fora e dividir um pouco seu sofrimento, sua dor, sua mágoa, sua culpa. Quase não escutam uns aos outros, tal a necessidade sufocada de falar.

Muitos não entendiam os objetivos do nosso grupo. Chegavam, despejavam sua aflição e depois não mais voltavam. Quem ficava, não compreendia porque não retornavam já que estavam tão desesperados.

Outros frequentavam por um tempo e desapareciam, tentavam fugir, negar,  pois não conseguiam se identificar com as situações apresentadas, não aceitando que seu familiar estivesse com aquela doença.  “Prefiro não saber”.   “Isto não está acontecendo comigo”.

Também há os que adoecem  de tão difícil que é para eles aceitarem as mudanças que um familiar com demência traz para suas vidas. Preferem se tornar vítimas em vez de “cuidadores”. Apresentam diversos tipos de doenças, enfartes, quedas com conseqüências sérias, pressão alta, depressão, baixam no CTI com estresse agudo, e às vezes, morrem.  Recusam a se cuidar.

É preciso um enorme esforço, um desejo verdadeiro para enfrentar esta doença devastadora. É preciso admitir que necessito de ajuda para este enfrentamento e necessito de ajuda para cuidar de mim mesmo.

Cuidar-se é estimar-se, gostar-se.

A autoestima do cuidador é importante porque o dar e receber afeto do doente dependem da autoestima do cuidador. Como o doente não diferencia mais o que sente, ele vai sentir o que o cuidador sente. Se o cuidador está bem, o doente estará também. Se cuidador está tenso, agitado, preocupado, apressado, estas atitudes refletirão no doente.

Nossas reuniões da  Grupoterapia ficavam num ir e vir constante, com rotatividade de participantes. A conseqüência disso é que não saíamos dos desabafos, do alívio das tensões. Acontecia uma pequena troca de experiências e busca de apoio, principalmente de soluções para os inúmeros problemas. Receitas nem sempre funcionam e há de se ter uma criatividade enorme nas estratégias para lidar com nossos doentes.

Mas, como fortalecer o grupo, como criar uma verdadeira rede de sustentação afetiva para estas pessoas?

A cada semana tínhamos novos participantes, que na reunião seguinte não apareciam, pois tinham vindo apenas em busca de um alívio imediato. Sabíamos, entretanto, que logo o copo d’água transbordaria novamente.

O nosso objetivo de fortalecimento e suporte do familiar cuidador só poderia ser realizado com a continuidade de comparecimento às reuniões do grupo, com a constância.

Olhar-se num primeiro momento, conhecer-se, entrar em contato com seus sentimentos e emoções, aceitando-os. Num outro momento, poder cuidar do seu doente, olhar para ele e perceber sua doença e, quem sabe, no fundo de seus olhos, compartilhar sua dor, sua perplexidade diante da doença, aceitá-lo e compreendê-lo. Surgiria, então, uma nova relação com ele, completamente diferente da relação existente antes da doença.

Este objetivo tornou-se um grande desafio – a cada dia, aprendia com a nova experiência na APAZ, percebia que não há regras para o grupo, e que o caminho vamos traçando juntos ao caminhar, de acordo com as necessidades que surgiam. Com o tempo, começamos a ter algumas pessoas mais assíduas e que começaram a formar um verdadeiro grupo.

28 de julho de 2010

Os desafios do familiar do doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 16:31
 

- Compreender e aceitar a doença.

- Sair do isolamento.

- Aprender a pedir ajuda.

- Cuidar-se.

- Autoconhecer-se: quem sou eu? quais são meus limites?

- Entrar em contato com seus sentimentos: raiva, frustração, culpa, tristeza.

- Fortalecer-se para enfrentar a progressão da doença.

- Conviver com as perdas constantes.

- Estimular a afetividade, resgatar o carinho, o abraço, o olho no olho.

- Usar a criatividade, o bom humor.

- Viver o momento presente.

- Promover o reencontro paciente-cuidador, o resgate da relação, a vivência de inverter papéis.

Não é nada fácil, é necessário um dia de cada vez, um aprendizado constante. Por isso, sempre penso que é importante compartilhar num grupo de Terapia ou  grupo de Apoio, como os que temos na APAZ – Associação de Parentes e Amigos dos Doentes com Alzheimer, Doenças Similares e Idosos Dependentes.

Procure ajuda!

27 de julho de 2010

Como agir com o doente com Alzheimer?

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 16:38
 

Há muitas dúvidas e questões sobre como se deve agir com o doente com Alzheimer ou outras demências:

-contar sobre a doença para o próprio doente ou não.

-internar em casa geriátrica ou cuidar em casa.

-o doente sofre no decorrer da doença ou não.

-mudar de casa ou não.

-ter cuidador ou não

-ir morar com o doente ou não.

-viajar com o doente ou não.

-dar remédios ou não.

Enfim, uma série de questionamentos perturbam o familiar que busca por soluções, respostas, receitas – e, sabemos que não há Manual do Proprietário para seres humanos.

O que temos para compartilhar são experiências pessoais e variadas, que muitas vezes nos ajudam a compreender melhor as necessidades do doente. Mas, nem sempre se aplicam ao “nosso” doente.

Cada pessoa é uma única, e mesmo sintomas muito parecidos não nos fornecem uma receita. Tentativa e erro exige abertura e flexibilidade – o que dá certo para um, não dá certo para outro, o que dá certo num dia, não dá certo no outro dia. Difícil, mas possível!

As pessoas são diferentes, tem valores diferentes, histórias de vida diferentes, crenças diferentes, motivações diferentes e vivem em contextos sociais, culturais e econômicos diferentes.

Observo pessoas chegando na Grupoterapia com muita culpa e desespero, querendo que nós tenhamos a resposta certa.

Acontece que não há resposta certa para nenhum ser humano. Vai existir sim, uma resposta mais adequada para aquele momento.

Cada familiar cuidador vai ter a sua resposta e fará o melhor que puder naquele momento, respeitando seus limites e as suas possibilidades.

As sugestões são sempre válidas, mas não são verdades absolutas.

Nós profissionais de saúde precisamos ter muito cuidado com aquilo que falamos, para não trazer mais culpa para as pessoas. É preciso cuidado com a arrogância do “saber”, pois podemos desencadear nos familiares mais sentimentos de fracasso, de não ser capaz de cuidar, de estar agindo da maneira “errada”.

Importante é ajudar que cada familia encontre a sua resposta para aquela situação do momento,  que tenha flexibilidade suficiente e coragem para mudar quando aquela resposta não servir mais.

“Quando pensamos que temos todas as respostas, vem a vida e nos faz novas perguntas”.

Não sei quem é o autor desta frase, mas é exatamente isso que acontece conosco o tempo todo! As soluções serão quase sempre provisórias, pois a doença progride e vai demandar mudanças constantes. Tal qual a VIDA!

26 de julho de 2010

Temas frequentes na Grupoterapia dos familiares dos doentes com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 11:22
 

Perda

Algumas pessoas do grupo relatam medo de perder o seu familiar, mesmo percebendo que esta perda já acontece: aos poucos para alguns, mais acelerada para outros. Aparece o medo de perder definitivamente.

Relatos de que “eu estou preparada” aparecem. Mas será que estamos preparados para aceitar a morte?

Como se preparar?

O que é se preparar?

Conscientizar-se da finitude, do fim da vida?

Acreditar que a morte não é o fim, que há algo mais?

Relatos “não quero nem pensar nisso” também aparecem. Mas, tem que pensar, é importante se acostumar com a idéia.

“Mas o que eu vou fazer quando ele (ela) se for?”  “Não vou aguentar!”“Como vou ficar, se não tiver que cuidar dele (dela)?”

O cuidar do doente não pode se tornar o sentido nem o objetivo da vida de ninguém.

Chamam a isso de co-dependência.

Por isso é importante para o cuidador cuidar-se. Conhecer a si mesmo, buscar seu desejo, seus sonhos, seu sentido da vida, ter seu tempo, suas atividades – porque tudo isso vai ajudá-lo na hora da perda, vai ajudá-lo na superação da falta.

Se ele não tiver sua própria vida, pode tornar-se co-dependente do doente, pode adoecer de tanto estresse, pode morrer antes do doente. Não é raro no nosso convívio, ter familiares que adoecem devido a forte pressão emocional, chegando alguns à morte.

Importante também é viver os bons momentos, valorizar o que ainda há de bom na relação cuidador-doente. Compartilhar pequenas coisas, momentos de alegria, de risos, de cantoria, afetos e carinhos, abraços e beijos.

Essas boas lembranças é que vão ficar e nos confortar nos momentos de falta, de saudade.

Ciúme

Ciúme que o doente tem do cuidador.  Como se fosse uma criança que deseja toda atenção para si – que não sabe compartilhar, que não vê o outro,  porque o mundo gira em torno dela.

O doente fica o tempo todo atrás do cuidador, seguindo-o pela casa, para se certificar que está protegido, em segurança.

Como o doente vai perdendo sua identidade, o controle de sua vida, sua independência, a capacidade de julgar os fatos e suas respectivas consequências, precisa se certificar que alguém está lá, ao seu lado.

De alguma maneira, o doente sabe que depende do cuidador.

O cuidador não pode sair, falar ao telefone, conversar com a visita, dar atenção a uma criança, tomar banho, ler, descansar. Sempre está lá o doente atrás dele. Quem tem filhos pequenos, com certeza, vai lembrar-se de ter passado esta fase também com a criança pequena.

Há relatos de que as crianças não são bem vindas porque o doente disputará a atenção com elas.

Alguns doentes, no entanto, gostam de brincar com crianças pequenas porque elas não exigem a lógica adulta, que tanto os incomoda.

No entanto, como todos os comportamentos apresentados no decorrer da doença, o ciúme é apenas uma fase. E logo passará, assim que a doença progredir.

“Os pacientes com Alzheimer só pedem uma mão para segurar, um coração que se interesse e uma mente que pense por eles quando não puderem fazê-lo; alguém que os proteja enquanto viajam através dos perigosos desvios e meandros do labirinto”.                                                                                                                                                                                                                                                                                       Mc Gowin, Diana – “Vivendo num Labirinto”

18 de julho de 2010

Primeiras dificuldades do familiar do doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 17:42
 

As primeiras dificuldades do familiar de um doente com Alzheimer são de entrar em contato com os sentimentos de raiva, culpa, tristeza, frustração e, ao mesmo tempo, com sentimentos de perda progressivos que vivencia com seu familiar doente.
Chegar ao grupo na APAZ já é um grande passo! É admitir que há algo errado! Aceitar a doença.
Vejo, no meu dia a dia e mesmo na convivência com meus amigos e com minha própria família, como é difícil reconhecer que seu familiar querido está envelhecendo, está com problemas de memória, de raciocínio, que não é mais o mesmo de antes e precisa de cuidados próprios para a fase que vem atravessando.
O grupo resiste, preferindo repetir os relatos sobre o paciente, sobre seus sintomas e seu comportamento.
Passam vários encontros repetindo os mesmos relatos uns para os outros. E sem falar do que sentem!
Nota-se por vezes, sinais de impaciência de alguns, mas ainda não tem coragem de dizer da sua impaciência para seus pares.
Penso que é preciso algumas intervenções. Na medida do possível, quando encontro uma brecha, já é possível fazer com que eles parem e escutem, reflitam sobre o que estão dizendo e sentindo.
Procuramos aproveitar as colaborações de todos os integrantes do grupo – artigos que recortam, palestras que assistem, cursos que freqüentam – a idéia é que possam trazer também informações para seus colegas, propiciando uma troca num espírito de colaboração. São estimulados a tirar xerox dos artigos, resumir as palestras e cursos, digitar e distribuir para o grupo.
Procuramos utilizar os recursos de cada um, estimulando o envolvimento e a participação no grupo.
Esse sentimento de fazer parte cria o verdadeiro comprometimento. Estou aqui para me ajudar e ajudar o outro – vir aqui é importante para mim e para o grupo. É um estímulo para freqüentar o grupo, ser assíduo.

Algumas pessoas do grupo simplesmente não conseguem chegar na hora. Há sempre uma justificativa lógica, mas insisto para que cumpram o horário. Quem chega atrasado ou falta perde o fio da meada, atrapalha de certa forma o fluir daquele encontro e deixa de vivenciar a continuidade dos acontecimentos. O processo de crescimento do grupo fica prejudicado.

Cada encontro é um encontro, mas as experiências já vividas no grupo colaboram para um melhor encontro consigo mesmo.
O grupo esta aqui para cuidar do cuidador, para que o cuidador se autoconheça, entre em contato com seus sentimentos e emoções, melhore seu relacionamento com o doente, conheça seus limites, lide com sua culpa, perdoe e reveja seus ressentimentos com o doente.
Importante criar uma rede de sustentação afetiva no grupo para que as pessoas se sintam confortáveis para falar de si mesmas, se abram para o grupo. Lidem com a rejeição, com o que “os outros vão pensar”. Sintam-se aceitas umas pelas outras, sem julgamentos de certo ou errado, abertas para outros pontos de vista diferentes do seu. Desenvolvam sua criatividade, liberando todo potencial afetivo, sua empatia e compreensão de si e do outro.
Sentimentos de vergonha em assumir que se sentem presos ao doente, que perderam sua liberdade são comuns.
Trabalhando as diferenças individuais, as percepções diferentes sobre um mesmo objeto, assunto ou maneira de ser,
ajuda a autoaceitação.
É sempre difícil o aprofundamento de um assunto, pois facilmente o grupo retorna ao estágio de repetir os fatos, o comportamento diário de seu paciente. É um processo longo esse da elaboração…de cair a ficha!

Alguns ainda não estão prontos para um aprofundamento – ainda precisam desabafar, falar, aliviar o estresse.
Temos feito exercícios de relaxamento, ouvindo músicas e construindo imagens prazerosas e positivas. Há os que não conseguem desligar e não se permitem sentir prazer, mas há os que vivenciam experiências positivas e as relatam para o grupo com grande bem estar.

Há momentos que o negócio é falar, falar, falar, sem escutar o outro. É preciso controlar conversas paralelas, dar limite ao grupo e estabelecer regras de convivência – aprender a ouvir.

“Dar conselhos” é uma tendência no grupo, pois há uma certa identificação nos problemas que acontecem. Mas as soluções nem sempre funcionam igualmente, é preciso estar relembrando que cada um é um, que as pessoas são diferentes embora enfrentem problemas semelhantes. De qualquer modo, a troca e o exercício da criatividade fazem um movimento em busca de uma solução.

Por que decidi escrever sobre Familiares de doentes com Alzheimer?

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 17:10
 

Os motivos são vários:

Para compartilhar minhas observações, as lições aprendidas, as idéias que reformulei, as crenças que foram abaladas, os sentimentos que vivenciei, os momentos difíceis, os momentos de frustração, o inevitável crescimento pessoal, as dificuldades que enfrentamos juntos, as alegrias que dividimos, o pranto que choramos, a vida que celebramos, “o Bem e o Mal de Alzheimer”.

Acredito que a cada encontro do grupo nos tornamos seres humanos um pouquinho melhores, apesar de todo o caos que a doença de Alzheimer representa.

Sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto sobre a Doença de Alzheimer, creio que a experiência do grupo pode ajudar alguém a compreender melhor esta doença e, principalmente, a compreender o que sente.

Pois é do sentir que procuro falar nestas anotações. Do sentir do grupo, do meu sentir.

Falo de Ser Humano, em constante aprendizado, em constante evolução, que aprende no ensaio e erro e não deve ter vergonha de ser feliz.

Não tenho nenhuma intenção de dar receitas ou a solução para todos os problemas. Mas tenho a intenção de dizer que você pode superar as dificuldades e encontrar a SUA solução, se procurar ajuda para equilibrar-se em todas as suas dimensões humanas: física, intelectual, emocional e espiritual.

É uma oportunidade de se abrir, de conviver com as diferenças, com pontos de vista diferentes do seu, de reavaliar suas crenças e suas verdades, de exercitar a humildade, deixar de lado a prepotência, a vaidade, o orgulho. De MUDAR.

Lembre-se: a escolha será sempre sua. É você que decide que tipo de vida quer ter e como vai ser a sua relação com o seu familiar.

Também gostaria de falar da gratificação de participar deste projeto.
Eu não sabia, mas agora eu sei, que me faz muito bem poder estar lá na Grupoterapia da APAZ toda semana.
Mais do que ajudar os familiares dos doentes com Alzheimer no grupo, sinto que eles é que estão me ajudando a me autoconhecer.
Às vezes é cansativo, não vou negar, nem sempre é fácil, mas o sentimento é indescritível.
De novo, falo do sentir. Faz bem pra alma! É pura endorfina.
E recomendo a todos.
Experimente fazer um trabalho que você gosta e onde possa ajudar os outros e compreenderá o que estou sentindo!
A sua visão do mundo e de si mesmo vai se ampliar.
Vamos lá, administre o seu tempo, você pode!

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