15 de maio de 2011

Meu marido com Alzheimer não aceita cuidadores

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 18:27
 

Esta semana, no Grupoterapia da APAZ, com familiares/cuidadores de doentes com Alzheimer, o tema que uma participante mais nova no grupo trouxe foi:

¨Meu marido não aceita que outra pessoa cuide dele além de mim!¨

Acrescento a este relato, que esta participante já tem bastante idade, é diabética e hipertensa, que seu marido com doença de Alzheimer tem mais de 90 anos e ainda caminha, executando as atividades de vida diária com supervisão, tendo memória e cognição bastante prejudicadas e apresentando comportamentos por vezes inadequados. Acorda e caminha pela casa durante a noite, e ela não consegue dormir direito, ficando cansada durante o dia. Está visivelmente estressada pela situação. São casados há mais de 50 anos.

Para que ela saia de casa ou tenha alguma atividade, o filho precisa ficar cuidando do pai.

Ela veio buscar ajuda na APAZ após muita insistência da filha, e após obter as informações necessárias e assistir a Reunião Mensal da APAZ, foi encaminhada para o Grupoterapia.

O grupo todo foi unânime em lhe dizer com muito carinho que ela estava precisando de alguém para ajudá-la, mas ela insistia chorosa que o marido não aceitava uma pessoa estranha em casa.

O grupo apresentou muitas sugestôes, contando suas experiências e como cada um foi resolvendo questões deste tipo ao longo do tempo.

Lembraram a ela que os cuidadores que conhecem a doença, tem bastante paciência para lidar com este tipo de rejeição, e com o tempo, os doentes acabam aceitando seus cuidados. Também lembraram que talvez um cuidador do sexo masculino fosse melhor aceito, pois por vezes o doente se sente constrangido por cuidadores do sexo oposto. Outros doentes, pelo contrário, só gostam de cuidadores, fisioterapeutas, etc… do sexo oposto, pois revivem suas fantasias… Falar com o médico e relatar que o paciente não dorme durante a noite. Dormir em quarto separado para poder ter forças no dia seguinte para tomar as decisões necessárias aos cuidados com o doente. E lembraram que seu marido não tem mais discernimento para tomar decisões importantes, e ela é que tem que escolher o que é melhor.  Enfim, muitas foram as sugestões.

O importante, foi ressaltado, é que ela aceite ajuda. E experimente uma solução, até acomodar a situação. E encontre a sua solução. A mais adequada para a harmonia de sua casa e de sua família!

Uma coisa é certa: O familiar/cuidador não tem que viver em desespero. É preciso buscar ajuda e soluções.

Será que não é você que não quer alguém estranho cuidando do seu marido? Será que ninguém vai saber cuidar tão bem como você? Por mais duro que seja, questione-se!

E saiba que se você estiver bem, seu doente estará bem. Se você estiver certa de que está fazendo o melhor, o seu doente com Alzheimer ficará bem e aceitará suas decisões.

1 de maio de 2011

Estresse do Familiar do Doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 22:04
 

Muito já falamos sobre o desafio que é ser um familiar/cuidador de um Doente com Alzheimer. O tempo todo insistimos que o familiar cuidador tem que se cuidar em primeiro lugar, para poder dar conta de cuidar de seu Doente com Alzheimer.

Parece fácil seguir estas orientações. Parece simples e tranquilo. Parece óbvio.

No entanto, no dia a dia de convivência com os familiares dos Doentes com Alzheimer, observamos que mesmo com todo o preparo, com toda a informação disponível, com toda ajuda da APAZ e da Psicoterapia de Grupo, os momentos de estresse comparecem sem cerimônia nenhuma na vida dos familiares dos Doentes com Alzheimer.

Estávamos comemorando a Páscoa, aproveitando o tema do renascimento, do recomeço, de deixar morrer o que não queremos mais em nossas vidas e deixar nascer o melhor de nós mesmos, quando uma participante do Grupoterapia da APAZ sentiu-se mal.

Ela havia passado momentos difíceis com sua mãe com Alzheimer em outros tempos, mas, ultimamente, tudo parecia correr bem e estar sob controle.

Por que estaria passando mal? Seria baixa de pressão, presão alta? Era um mal estar que parecia um enjôo do estômago, mas ela não havia feito nada fora de sua rotina.

Resultado: foi levada à emergência de um Hosital e detectado um infarto, e ela foi para UTI para observação. Segundo os médicos, sua sorte foi ter sido socorrida a tempo.

Mas pensam que ela queria ir para o Hospital? Queria que alguém da família fosse chamado? Claro que não! Insistia que já estava bem e não queria incomodar ninguém.

O estresse de pegar para si toda a responsabilidade com sua mãe, Doente com Alzheimer, de não querer ¨incomodar¨ outros familiares, de não compartilhar o peso que carrega, de não pedir ajuda, de pensar que tem o controle sobre tudo, um dia aparece e com consequências graves. O corpo fala e se expressa.

O sinal de alerta foi acionado! O que fazer? Será que agora eu vou aprender algo com o que me aconteceu? Será que vou me cuidar e me modificar? Será que vou valorizar minha saúde, minha vida?

Cuidado com o estresse excessivo em sua vida! Encontre maneiras de lidar melhor com ele, sem precisar adoecer. Vamos tentar buscar respostas mais positivas e saudáveis para solucionar nossas dificuldades.

Mas, não pense que é fácil. Depende de você!

2 de março de 2011

Confusão Mental do Doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 16:47
 

¨I have lost myself!¨, dizia Auguste D., paciente do Dr. Lois Alzheimer.

¨Eu perdi a mim mesma!¨

É muito importante que todos os familiares  dos doentes com Alzheimer tenham sempre esta frase em mente, pois ela representa o verdadeiro sentimento do doente, expressando toda confusão mental que vivencia no seu dia a dia.

As versões do doente com Alzheimer dos fatos e acontecimentos podem estar contaminadas por esta confusão mental.

Por vezes, usa o pensamento mágico, relatando histórias que parecem de verdade. Inventa histórias para justificar seus lapsos de memória.  Outras vezes confunde fantasia com realidade, assistindo um programa ou filme na TV, conversando com os personagens das novelas.  Nas conversas, confunde fatos do passado com os do presente.  Pode ter alucinações e delírios.

Sempre, ele, o doente com Alzheimer será o dono indiscutível da verdade. É preciso saber escutar e não discutir.  Acatar o que nosso familiar doente com Alzheimer nos relata.  Perceber como ele está, que sentimento ou emoção está expressando, se assustado, se nervoso, se agitado, se ansioso, se triste, se inseguro, com medo…  Acolher o sentimento, a emoção, compartilhar e procurar acalmá-lo. Assim, damos a ele apoio e segurança, além de abertura para expressar o que sente. Aos poucos, ir mudando de ambiente ou de assunto, ou para alguma atividade que ele goste de fazer.

É claro que, em alguns momentos, vamos precisar ter atitudes firmes, colocar limites. Mas, se conseguirmos ter em mente que nosso familiar está confuso na maior parte do tempo, vamos aprendendo a reconhecer suas reações e a lidar com elas da melhor maneira possível.

¨Eu recuava alarmada a cada perda adicional de memória e concentração. Mas não confiava aos membros da minha família, quando elas ocorriam. Ao invés disso, eu continuava a fazer um jogo de camuflagem chamado – Eu Tenho Um Segredo, – mesmo depois que todos já estavam cientes das minhas novas deficiências. Em meu medo e desespero, cada perda tomava proporções maiores, mas ainda assim eu continuava com minha tentativa tola de iludir os outros.¨ Mc Gowin, Diana em Vivendo no Labirinto, Alzheimer na visão do paciente.

A tentativa de se colocar no lugar do outro – o doente com Alzheimer – , que chamamos de EMPATIA, de muito ajudará o familiar/cuidador a lidar com as dificuldades de comportamento do doente.

Não é fácil não! Mas, de posse de conhecimentos e informações sobre a Doença de Alzheimer, vamos tentando compreender o nosso doente.

 

 

 

 

1 de fevereiro de 2011

Doente com Alzheimer não é criança!

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 14:18
 

A Doença de Alzheimer é uma doença neurológica progressiva e degenerativa e o doente faz um caminho decrescente na escala de desenvolvimento físico, mental e intelectual ( não no espiritual), perdendo habilidades e capacidades. O doente com Alzheimer faz o caminho inverso da criança em desenvolvimento.

No entanto, o doente com Alzheimer é uma pessoa ADULTA, com uma longa história de vida, que viveu experiências variadas, exerceu sua profissão ou atividade, defendeu idéias e opiniões, tinha uma determinada maneira de se comportar, com seus valores e princípios e desenvolveu ao longo da vida características de personalidade e temperamento. Cuidava da própria vida e sabia quem era.

Portanto, não se trata aqui de uma criança em desenvolvimento, em formação, com um longo aprendizado pela frente, com uma personalidade a ser desenvolvida e potencialidades a serem descobertas.

Podemos ensinar uma criança, mas não um doente com Alzheimer. Nem adianta tentar corrigir seu comportamento, por vezes  inadequado. Nem ensinar tarefas que exijam raciocínio logico ou novas habilidades motoras. Talvez possamos exercitar apenas o que ainda nosso doente com Alzheimer consiga fazer e não insistir no que ele não pode mais.

Observamos muitos familiares/cuidadores se desgastando no relacionamento do dia a dia  com o doente porque esperam que ele aja com coerência e lógica, insistem em corrigi-lo e querem que executem tarefas que não mais conseguem fazer.

Na verdade, é uma causa de estresse tanto para o familiar/cuidador quanto para o doente com Alzheimer. Ele pode apresentar reações agressivas, ou reações catastróficas devido ao confronto. E, às vezes, não nos damos conta de que sua reação é apenas a resposta que consegue dar à nossa insistência em não compreendê-lo.

Como estamos cuidando de um ADULTO, talvez não seja apropriado infantilizar o doente com Alzheimer, usando linguagem infantil e os diminutivos.

Respeitar a história do doente com Alzheimer, seus gostos e desgostos, é antes de tudo uma questão de respeito e dignidade, pois apesar de estar confuso, com a memória prejudicada, e apresentando comportamentos bizarros, é um SER HUMANO.

18 de agosto de 2010

“Quero ir para minha casa”!

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:40
 

Uma das situações mais comuns que o Grupo de familiares de doentes com Alzheimer relata inúmeras vezes é: “Quero ir para minha casa” ou “Quero voltar para casa”, repetido numa fase específica da Doença de Alzheimer.

O doente pode estar na sua própria casa, na Casa Geriátrica ou Centro de Convivência ou Casa de Repouso, na casa de algum parente, no consultório médico – não importa, vai repetir inúmeras vezes esta frase.

O familiar tende  a interpretar, como que se num lampejo de consciência, o doente estivesse manifestando, expressando um desejo. Será?

Que casa é essa que ele quer retornar?

Será a da infância, ou a de quando casou, já que a memória passada é a mais accessível?

A que parte do passado ele se refere?

Seria mesmo uma lembrança momentânea?

Ou apenas uma maneira de dizer que algo está errado?

Que se sente inseguro por não saber onde está?

Que não sabe quem é, que está inteiramente perdido?

Será que o desejo do doente não se refere a retornar a um estado anterior, sem doença, quando era independente e dono da sua vida?

A família tende sempre a interpretar pela lógica racional e custa muito a aceitar aquela fala como algo da doença. Afirma sempre que são momentos de lucidez do seu ente querido. Que lucidez?

Pode haver momentos de consciência, não sabemos até que ponto, mas a lógica há de ser outra, é preciso olhar sob outro ponto de vista.

Mesmo os que já lidam muito tempo com a doença, tem lá suas recaídas e tendem a levar ao pé da letra tudo o que o doente diz. Muitas vezes, tal diálogo se torna um motivo de frustração, mágoa e até mesmo de confronto porque acabam argumentando e contra-argumentando com o doente, sem chegar a nenhuma conclusão. Pode ser que por um momento, apenas por um momento, dá um certo alento acreditar que o doente voltou a ser o que era antes da doença.

Sabemos intelectualmente que a lógica do doente é diferente da nossa, mas no nosso emocional é como se pudéssemos apenas por um momento ter o nosso querido de volta.

Exemplo: A mãe, muitos anos com DA diagnosticada, diz para a filha:

_ “Sou uma largada!”

Tal frase causa um impacto fulminante na filha, que até se aposentou precocemente para cuidar da mãe doente, trazendo-a para sua casa, fazendo o melhor possível para cuidar da mãe.

No entanto, o tal sentimento de culpa foi acionado, a filha ficou magoada com a expressão do sentimento da mãe.

É preciso elaborar melhor as culpas, as mágoas do passado, a raiva e compreender as expressões verbais e não verbais no contexto atual, resgatando a relação com o familiar doente. Nada é fácil nesta doença e na relação com o doente, mas as situações podem ser resolvidas se enfrentadas com coragem.

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Responsabilidade do familiar do doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:14
 

Como é difícil assumir a responsabilidade pelo seu familiar doente!  Que posição tomar diante desta doença?

Dar medicação prescrita pelo médico para estabilizar o quadro, mesmo sabendo que a progressão da doença é irreversível, que não há cura?

Manter a Qualidade de Vida do doente? Mas que Qualidade de Vida?  Uma pessoa com demência, que não sabe quem é nem onde está, que perdeu a capacidade de raciocínio e demais funções cognitivas pode viver com qualidade?

Quem decide qual o tratamento do doente?

Dar ou não dar o remédio? Quando dar? Quando parar? Analisar o custo / benefício?

Buscar soluções de conforto alternativas?

Medicações alternativas?

Prolongar a vida que não é mais vida?

Prolongar o sofrimento?

A responsabilidade de qual caminho seguir é sempre da família, já que o doente não tem condições de escolher.

Muitas pessoas, ainda lúcidas, falam aos seus familiares como gostariam de ser tratados em caso de doença grave ou na sua morte:  não ser ressuscitado, não ir para UTI, não ser mantido em aparelhos,  onde gostaria de ser enterrado, se gostaria de ser cremado, onde suas cinzas seriam jogadas, etc…

No entanto, para a maioria das famílias a doença grave e a morte são assuntos proibidos, como se nunca fossem nos atingir. Por isso é muito difícil para os familiares tomarem decisões em relação ao familiar doente.

Cada pessoa é única, cada família tem seus valores, suas crenças.

Mas, sempre ajuda se na hora de tomar decisões, tentarmos lembrar quem foi essa pessoa que hoje adoeceu, que coisas ela gostava, como foi sua vida, como era seu comportamento em relação a doenças e em relação a morte.

Não é fácil, repito. Não há receita. Mas todos nós gostaríamos de ter a receita, o remédio, a pílula mágica. É por isso que muitas vezes buscamos nossa salvação no Médico. Numa busca quase desesperada de alguém que decida por nós.  Como se o Doutor tivesse “a solução”!

E ficamos muito frustrados quando nos damos conta que a Medicina, infelizmente não tem “a resposta certa”. Até mesmo porque não existe resposta certa. Não se trata de uma ciência exata, mas de uma ciência experimental. E o Doutor não é Deus!

Importante é sempre ter informação, ler sobre a doença, ouvir a opinião dos médicos (sou a favor da segunda  opinião), das pessoas que passam por problemas similares, dos profissionais de saúde que lidam com a DA, na Internet, nas associações de familiares – enfim, as informações sempre serão úteis para podermos escolher qual o caminho a seguir.

No meu contato com familiares de doentes com Alzheimer, descobri que, depois de muito penar, cada familiar opta por um tipo de tratamento. Há os que seguem estritamente o que o Neurologista recomenda, há os que preferem o acompanhamento do Geriatra, há os que só consultam seus Clínicos de confiança, há os que não usam os remédios para estabilizar a memória, há os que preferem a Medicina Ortomolecular, a Fitoterapia, a Medicina Chinesa, a Homeopatia, enfim, cada um acaba acertando com um tipo de tratamento. Há também os que dependem dos serviços públicos, não tendo muitas alternativas de escolha.

O fato é que as soluções nunca são definitivas, elas são adequadas durante um certo período de tempo, que varia de acordo com cada doente. Depois precisam ser revistas, reavaliadas, ou mesmo modificadas, pois a doença vai evoluindo.

A estabilização da doença nem sempre depende dos remédios que o doente toma, mas  a evolução progressiva da doença contempla a todos de forma avassaladora.

Sabemos que a atitude da família e do cuidador vão influenciar sempre no bem estar do doente, mais até do que a medicação que ele toma. Ele sempre vai reagir de acordo com o ambiente ao seu redor.

Com a progressão da doença o doente perde a noção do que lhe é gratificante, sua auto-estima fica imperceptível, portanto seu bem estar, suas necessidades e sua afetividade passam a se espelhar nas atitudes dos que com ele convivem. Cada familiar, cada cuidador tem sua própria história de vida, sua personalidade, seus limites, seu modo de ser, de expressar seu afeto.

Como a auto-estima de quem é cuidado está diretamente ligada a auto-estima do cuidador, é da maior importância que o cuidador se cuide.

Por isso defendemos a Grupoterapia para os familiares, uma Psicoterapia que embarca numa viagem de autoconhecimento e de onde surgirão novos papéis e respostas criativas para dar conta do convívio com essa “maldita” (ou “bem-dita”, se encarada como crescimento pessoal) doença.

15 de agosto de 2010

Familiar/cuidador como protagonista na doença de Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 19:47
 

Quanto mais escuto os familiares dos doentes com Alzheimer, mais aprendo que o familiar/cuidador é o protagonista de cada história de DA.

Também me parece o membro mais forte da família, o que se responsabiliza pelo doente e busca solucionar a complexa história da família, traduzindo os sintomas expressos pelo familiar que adoeceu. É como se ele tomasse para si esta história para compreendê-la e aceitar o seu papel como parte desta família. Muitas vezes, o cuidador assume o papel anteriormente exercido pelo doente, agora impossibilitado de fazê-lo.

Por isso ele tem que se cuidar e ter ajuda psicológica, pois como protagonista, ele não pode adoecer.

O que me surpreende a cada dia é que em vez de ensinar algo para o grupo, eu aprendo que não há regras a seguir, apenas lições a serem aprendidas.

O cuidador também é o protagonista desta história porque se ele estiver bem, o doente também estará. É como o espelho do doente, que perdeu sua identidade e introjeta o sentir do cuidador porque já não consegue se diferenciar do mundo ao seu redor.

Talvez esta seja a única regra a seguir – “se eu estiver bem, meu familiar doente também estará.”

No Grupoterapia também aprendi que casos que seguem em direção oposta às orientações dos manuais tradicionais, tiveram final feliz.

Exemplo 1: “Posso mudar de casa? O doente vai se adaptar à mudança?”

Se você estiver seguro de que é uma boa opção para você, amadureça a idéia com calma até que não tenha dúvida que será a melhor solução para você, familiar/cuidador.  Mude, pois seu doente sentirá confiança e ficará tranqüilo. Poderá até fazer perguntas, mas você saberá responder com tranqüilidade, pois acredita de verdade no que fez.

Porém, se a vontade de mudar for de outros familiares que não o principal cuidador, será difícil dar certo.

Exemplo 2: “Cuido de minha mãe durante a semana toda. Posso deixá-la nos finais de semana na casa de minhas irmãs?”

É difícil, é.  A mãe fica confusa, fica.  Vai chamar suas irmãs pelo seu nome.  Mas você precisa descansar, se cuidar, viver sua vida com sua própria família, marido, filhos.

Até que você tenha certeza que é o melhor para você, será difícil. Vai sentir culpa, provavelmente as irmãs irão enfatizar o quanto sua mãe chama seu nome, para se livrar do encargo e dizer como ela fica melhor com você. Mas não caia nessa chantagem emocional. Ninguém é insubstituível! Aos poucos você sentirá o benefício de cuidar-se para poder enfrentar melhor a semana e se sentirá mais segura. Com o tempo, sua mãe ficará mais tranqüila. Afinal, ela sabe que você sabe o que faz!

Estes são pequenos exemplos de como é importante trocar idéias, pedir ajuda, ir aos poucos tentando, nos erros e acertos, encontrando a sua maneira de lidar, que será única e adequada para aquele momento que está passando.

A decisão final sempre será sua!

6 de agosto de 2010

As relações com os doentes com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 19:57
 

Nossas interferências nas reuniões da Grupoterapia com os familiares dos doentes com Alzheimer são sempre para reforçar o “cuidar de si mesmo” para poder cuidar melhor do seu doente. Estar bem para que o doente fique bem.

É preciso se preparar, para aceitar a doença e o que virá com ela. Algo que não sabemos o que será.

Percebemos diferenças na relação cuidador-doente, quando se trata de marido-mulher ou de mãe-filho (a) ou pai-filho (a).

Os filhos normalmente têm sua própria vida, seus próprios filhos, suas profissões, e não dedicam tempo integral para o pai ou mãe doentes. Isso lhes confere um espaço maior para respirar, arejar a cabeça e recuperar energias. Em geral, convocam irmãos e parentes para ajudar.

No entanto, temos no Grupo, filhos que não contam com ajuda de irmãos ou parentes, filhos que abandonam seus trabalhos e se aposentam precocemente para “Cuidar” de seu pai ou mãe doentes, filhos que trazem o doente para morar em suas casas ou que saem de suas casas para morar na casa do familiar doente, enfim, outras soluções que trazem transtornos e conflitos.

Qualquer que seja a alternativa do filho (a), adaptações e mudanças constantes serão necessárias para o convívio ser o menos estressante possível. Sem esquecer de cuidar primeiro de si mesmo para dar conta de cuidar do doente!

Na relação marido-mulher, quando um dos dois adoece, o espaço para respirar e arejar é menor, instala-se uma solidão enorme que há de ser trabalhada no Grupo no sentido de fazer com que o cônjuge sadio busque seu próprio espaço, suas atividades e outras relações para poder dar conta do bem estar do seu familiar doente. No início, quem está sadio tende a abandonar todas as suas atividades para cuidar do doente, como se estes cuidados exclusivos fossem apenas temporários. Com o passar do tempo, o cansaço e o desânimo se instalam e fica difícil manter a serenidade no relacionamento.

Há casos em que o membro sadio do casal continua vivendo a relação como se o outro não estivesse doente, tendo enorme dificuldade de aceitar que ele(a) não é mais o mesmo(a).

Claro que nestas relações existem exceções e combinações das mais variadas. Se foi uma relação de igual para igual, se foi uma relação de extrema dependência, ou de passividade, autoritarismo, enfim, uma enorme gama de variações. E para cada tipo de relação, as reações serão diferentes.

Lembro sempre de um casal de certa idade, cuja esposa estava com Alzheimer. O marido estava sempre ao seu lado, tinha um certo “Orgulho” de mostrar como cuidava bem da sua esposa e como ela estava bem atendida em suas necessidades.  Não pedia ajuda aos filhos, pois achava que era sua obrigação cuidar sozinho de sua esposa. Foi um custo convencê-lo a contratar uma acompanhante, depois que estressado foi parar na UTI de um hospital.  Na verdade, ele sentia muita culpa em relação ao seu passado com a esposa e necessitava resgatar esta culpa.

Outro casal, também com mais de cinquenta anos de casados, era o marido que estava com a doença. No início, a esposa viveu um caos verdadeiro, mas com ajuda das filhas e netos, foi superando e se adaptando. Nunca tinha cuidado das finanças da casa, nem tinha tomado decisões importantes na família. Aos poucos foi se tornando dona da situação e viveu a sensação de ser não a vítima, mas a autora de seu destino e de sua vida. Vendeu o apartamento onde moravam e foi para perto de uma das filhas, e pela primeira vez na vida pode escolher seus móveis e objetos de casa. Nada disso foi fácil, foi um processo de crescimento que ela vivenciou na Grupoterapia. Não tomou decisões por impulso, mas foi amadurecendo com ajuda do Grupo. Percebeu que se ela estivesse segura das decisões a tomar, seu marido reagiria bem, já que a segurança do doente depende da segurança do cuidador.

Como inverter os papéis, como mudar minha maneira de agir com meu familiar?

Se eu conseguir aceitar a mudança da pessoa doente, perceber que ela não é mais a mesma de antes, que está doente (embora nem sempre isso esteja claro, pois parece estar bem em alguns momentos), eu passo a compreender que esta outra pessoa demanda outra forma de relacionamento. Eu preciso mudar minha forma de me relacionar com ela, sempre me baseando nas dicas que ela me dá.

Há uma história de vida por trás disso tudo e uma longa história. Muitas vezes cheia de afetos positivos e negativos, de marcas boas e ruins, de situações mal resolvidas. Fica, portanto, difícil reprogramar uma nova relação. “Continuo vendo meu marido (minha mulher, meu pai, minha mãe…) como era antes, e  não me conformo que não é mais o mesmo”.

E para reconstruir uma nova relação é preciso reconhecer esta história de vida sem culpas e partir para um novo começo, para uma nova história. Não é fácil, mas se encararmos estas questões, e procurarmos aprender a cada dia, conquistaremos pequenas alegrias no convívio, que farão toda diferença no nosso dia a dia.

1 de agosto de 2010

A família do doente com Alzheimer adoece também?

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 12:41
 

Ir ao neurologista, geriatra, psiquiatra, fisioterapeuta, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, nutricionista, musicoterapeuta… OK, levo meu familiar para os diversos profissionais de saúde.  Ele está doente, ele precisa ser tratado eu não preciso.

A demência desestrutura toda a família. Quando tudo parecia estar bem, vem a doença e aparecem os conflitos, que antes descansavam debaixo do tapete.

É frequente a resistência da família em buscar ajuda para si mesma, já que não se considera doente.  Resistência em buscar apoio, tratamento psicológico, em cuidar-se, tratar dos seus sentimentos e emoções, das suas dificuldades. Reunir-se para dividir cuidados, para buscar soluções.

Não é fácil aceitar a doença de seu familiar, elaborar as perdas que ocorrem diariamente, até o ponto de não reconhecer mais naquele sujeito, a pessoa com quem você conviveu tantos anos, tal a devastação que a doença provoca. É como se a pessoa morresse um pouco a cada dia. Mas, não conseguimos sair do circulo vicioso, repetindo todos os dias o mesmo comportamento, reagindo ao doente como se ele estivesse são, como se ele conseguisse raciocinar com lógica.

Os relatos que escutamos dos familiares são repetições contínuas do mesmo comportamento em relação ao doente, dos mesmos diálogos, das mesmas histórias.

Até que chega o momento que na Psicoterapia, depois de repetir inúmeras vezes a sua fala sem se dar conta, o familiar passa a escutar sua própria fala e a ter uma consciência maior dos seus atos, conseguindo sair do piloto automático para ter a possibilidade de encontrar soluções mais criativas para seu conflito diário.

“Não compartilhamos das dores dos outros”.

Cada um responde a dor de sua própria maneira. Esta experiência nos mostra como estamos separados uns dos outros.

No entanto, a Psicoterapia pode ajudar o familiar a se ver mais interiormente, a se compreender, se aceitar para estar com o outro de forma mais harmônica e humana.

A força motivadora para iniciar na Grupoterapia é o sofrimento do familiar, que sozinho não se basta, não dá conta.

Humanizar não é só uma mudança na estrutura física. Muitas vezes, ao se falar de qualidade de vida, privilegia-se apenas a estrutura física.

Os profissionais de saúde devem estar atentos a este conceito, procurando vivenciá-lo em sua prática diária.

O que é humanizar?

1 – É dar afeição e condição humana.

2 – É aprimorar a atenção à família.

Por vezes, o avanço tecnológico não acompanha o desenvolvimento humano.

Tarefa do psicólogo

Oferecer ao familiar uma possibilidade de ressignificar e elaborar seu sofrimento para tomar outra posição no seu cotidiano junto ao seu doente.

Uma possibilidade de mudança. Mas para MUDAR é preciso CORAGEM!

30 de julho de 2010

O ir e vir na Grupoterapia com familiares dos doentes com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 11:18
 

Num primeiro momento, todos querem falar, desabafar, colocar pra fora e dividir um pouco seu sofrimento, sua dor, sua mágoa, sua culpa. Quase não escutam uns aos outros, tal a necessidade sufocada de falar.

Muitos não entendiam os objetivos do nosso grupo. Chegavam, despejavam sua aflição e depois não mais voltavam. Quem ficava, não compreendia porque não retornavam já que estavam tão desesperados.

Outros frequentavam por um tempo e desapareciam, tentavam fugir, negar,  pois não conseguiam se identificar com as situações apresentadas, não aceitando que seu familiar estivesse com aquela doença.  “Prefiro não saber”.   “Isto não está acontecendo comigo”.

Também há os que adoecem  de tão difícil que é para eles aceitarem as mudanças que um familiar com demência traz para suas vidas. Preferem se tornar vítimas em vez de “cuidadores”. Apresentam diversos tipos de doenças, enfartes, quedas com conseqüências sérias, pressão alta, depressão, baixam no CTI com estresse agudo, e às vezes, morrem.  Recusam a se cuidar.

É preciso um enorme esforço, um desejo verdadeiro para enfrentar esta doença devastadora. É preciso admitir que necessito de ajuda para este enfrentamento e necessito de ajuda para cuidar de mim mesmo.

Cuidar-se é estimar-se, gostar-se.

A autoestima do cuidador é importante porque o dar e receber afeto do doente dependem da autoestima do cuidador. Como o doente não diferencia mais o que sente, ele vai sentir o que o cuidador sente. Se o cuidador está bem, o doente estará também. Se cuidador está tenso, agitado, preocupado, apressado, estas atitudes refletirão no doente.

Nossas reuniões da  Grupoterapia ficavam num ir e vir constante, com rotatividade de participantes. A conseqüência disso é que não saíamos dos desabafos, do alívio das tensões. Acontecia uma pequena troca de experiências e busca de apoio, principalmente de soluções para os inúmeros problemas. Receitas nem sempre funcionam e há de se ter uma criatividade enorme nas estratégias para lidar com nossos doentes.

Mas, como fortalecer o grupo, como criar uma verdadeira rede de sustentação afetiva para estas pessoas?

A cada semana tínhamos novos participantes, que na reunião seguinte não apareciam, pois tinham vindo apenas em busca de um alívio imediato. Sabíamos, entretanto, que logo o copo d’água transbordaria novamente.

O nosso objetivo de fortalecimento e suporte do familiar cuidador só poderia ser realizado com a continuidade de comparecimento às reuniões do grupo, com a constância.

Olhar-se num primeiro momento, conhecer-se, entrar em contato com seus sentimentos e emoções, aceitando-os. Num outro momento, poder cuidar do seu doente, olhar para ele e perceber sua doença e, quem sabe, no fundo de seus olhos, compartilhar sua dor, sua perplexidade diante da doença, aceitá-lo e compreendê-lo. Surgiria, então, uma nova relação com ele, completamente diferente da relação existente antes da doença.

Este objetivo tornou-se um grande desafio – a cada dia, aprendia com a nova experiência na APAZ, percebia que não há regras para o grupo, e que o caminho vamos traçando juntos ao caminhar, de acordo com as necessidades que surgiam. Com o tempo, começamos a ter algumas pessoas mais assíduas e que começaram a formar um verdadeiro grupo.