2 de março de 2011

Confusão Mental do Doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 16:47
 

¨I have lost myself!¨, dizia Auguste D., paciente do Dr. Lois Alzheimer.

¨Eu perdi a mim mesma!¨

É muito importante que todos os familiares  dos doentes com Alzheimer tenham sempre esta frase em mente, pois ela representa o verdadeiro sentimento do doente, expressando toda confusão mental que vivencia no seu dia a dia.

As versões do doente com Alzheimer dos fatos e acontecimentos podem estar contaminadas por esta confusão mental.

Por vezes, usa o pensamento mágico, relatando histórias que parecem de verdade. Inventa histórias para justificar seus lapsos de memória.  Outras vezes confunde fantasia com realidade, assistindo um programa ou filme na TV, conversando com os personagens das novelas.  Nas conversas, confunde fatos do passado com os do presente.  Pode ter alucinações e delírios.

Sempre, ele, o doente com Alzheimer será o dono indiscutível da verdade. É preciso saber escutar e não discutir.  Acatar o que nosso familiar doente com Alzheimer nos relata.  Perceber como ele está, que sentimento ou emoção está expressando, se assustado, se nervoso, se agitado, se ansioso, se triste, se inseguro, com medo…  Acolher o sentimento, a emoção, compartilhar e procurar acalmá-lo. Assim, damos a ele apoio e segurança, além de abertura para expressar o que sente. Aos poucos, ir mudando de ambiente ou de assunto, ou para alguma atividade que ele goste de fazer.

É claro que, em alguns momentos, vamos precisar ter atitudes firmes, colocar limites. Mas, se conseguirmos ter em mente que nosso familiar está confuso na maior parte do tempo, vamos aprendendo a reconhecer suas reações e a lidar com elas da melhor maneira possível.

¨Eu recuava alarmada a cada perda adicional de memória e concentração. Mas não confiava aos membros da minha família, quando elas ocorriam. Ao invés disso, eu continuava a fazer um jogo de camuflagem chamado – Eu Tenho Um Segredo, – mesmo depois que todos já estavam cientes das minhas novas deficiências. Em meu medo e desespero, cada perda tomava proporções maiores, mas ainda assim eu continuava com minha tentativa tola de iludir os outros.¨ Mc Gowin, Diana em Vivendo no Labirinto, Alzheimer na visão do paciente.

A tentativa de se colocar no lugar do outro – o doente com Alzheimer – , que chamamos de EMPATIA, de muito ajudará o familiar/cuidador a lidar com as dificuldades de comportamento do doente.

Não é fácil não! Mas, de posse de conhecimentos e informações sobre a Doença de Alzheimer, vamos tentando compreender o nosso doente.

 

 

 

 

30 de janeiro de 2011

Personalidade do Doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 18:02
 

Desde o ano de 2002 lidando com familiares de doentes com Alzheimer, aos poucos fui me interessando em perguntar às pessoas da família, como era a personalidade e o temperamento do doente antes de aparecerem os primeiros sintomas da Doença de Alzheimer.

E fui colecionando os dados informalmente ao longo deste tempo, e percebendo que a grande maioria das pessoas que foram diagnosticadas com Alzheimer tinha características de personalidade semelhantes.

Foram descritas como pessoas ¨autoritárias¨, ¨inflexíveis¨, ¨donas da verdade¨, ¨mandonas¨, ¨rígidas¨,¨ com dificuldades de expressar a afetividade¨,¨secas¨,¨duras¨.

Essas pessoas, com o desenvolvimento da Doença de Alzheimer, tiveram estas características de personalidade exacerbadas e tornaram-se os doentes difíceis de lidar nas fases iniciais da Doença.

Eles simplesmente não aceitavam o comando do familiar cuidador, nem sua interferência dando ordens do que deviam fazer. Era difícil impedí-los de sairem sozinhos, era difícil tirar o cartão do Banco e administrar a conta bancária deles, era difícil impedí-los de dirigir o carro, etc…

A vida do familiar cuidador, nesta fase torna-se muito complicada porque os conflitos são enormes. É necessário ter muita paciência e não ¨bater de frente¨com o doente. Sabemos que nem sempre isso é possível!

Mas, tudo passa…

Chega o momento em que a Doença de Alzheimer se agrava...Parece que o doente com Alzheimer sabe de alguma maneira que precisa do familiar cuidador, precisa que cuidem dele.

Nesta etapa, muitos são os relatos de familiares e cuidadores da mudança daquelas características fortes. O doente com Alzheimer passa a ficar mais calmo, mais dócil, por vezes mais carinhoso, aceita que cuidem do seu dinheiro e da sua vida.

Vai ficando cada vez mais fácil cuidar dele, já que a Doença vai progressivamente fazendo seu caminho e fica muito claro o declínio das funções cognitivas e da capacidade para administrar as atividades de vida diária.

Vai também ficando mais fácil para o familiar cuidador estabelecer uma nova relação com seu doente, muitas vezes resgatando o afeto, o carinho, o abraço, solucionando os conflitos anteriores, a raiva sentida tantas vezes, as mágoas guardadas…

3 de novembro de 2010

Emoções do familiar/cuidador do doente com Alzheimer

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 17:21
 

Quais as principais emoções que podem aflorar no familiar/cuidador ao longo dos anos de convívio com o doente com Alzheimer?

Voce, familiar/cuidador, veja se sente ou se identifica com uma destas emoções que comentamos a seguir.

Diante da suspeita de demência: incerteza, hostilidade, raiva, descrença e desconcerto.

Ao ser confirmado o diagnóstico: bloqueio mental e emocional, incompreensão, impotência, negação da evidência, temores racionais e irracionais, culpa, medo do futuro, sentimentos de solidão.

Na primeira fase da doença: vergonha, descontrole emocional, insegurança nos cuidados com o doente, ineficácia nas decisões tomadas, sensação de isolamento social, manifestações psicossomáticas de ansiedade e/ou depressão.

Em fases sucessivas: a tendência é que o cansaço físico e mental aumente ao mesmo tempo em que aparece o medo de perder seu ente querido.

Como transformar estas emoções?

Buscando AJUDA, APOIO. INFORMAÇÃO, GRUPOTERAPIA NA APAZ, PSICOTERAPIAS EM GRUPO OU INDIVIDUAIS.

Com ajuda, o familiar/cuidador do doente com Alzheimer, descobrirá ferramentas auxiliares na busca de vivências e emoções mais positivas para enfrentar as dificuldades crescentes e:

- desenvolver maior tolerância aos sintomas da doença de Alzheimer;

- aceitar o inevitável;

- crescer como pessoa;

- expressar afeto, bom humor e criatividade;

- vivenciar novos papéis;

- respeitar e aceitar seus limites;

- possuir o sentimento de fazer o melhor possível.

13 de setembro de 2010

“Estou com raiva do meu familiar com Alzheimer!”

Arquivado em : Alzheimer — Publicado por Tania Scripilliti 15:03
 

Início do Grupoterapia com familiares de doentes com Alzheimer, “aquecimento” do grupo com relaxamento.  Música, bolinha para auto massagem. Procurar ponto de dor no corpo, ponto com energia acumulada que precisa ser liberada. Massagear este ponto com a bolinha. Ouça a música, feche os olhos, respire…preste atenção na sua respiração…

Falamos das facilidades e das dificuldades para relaxar. Como uns conseguem se concentrar, se entregar ao relaxamento, enquanto outros não conseguem desligar os pensamentos, a razão. É sempre difícil para alguns admitir suas próprias dificuldades.

Após o relaxamento, logo surge o tema do dia, num corajoso desabafo:

“Estou com muita raiva da minha mãe!”

Dificuldades para aceitar a doença, depressão por ver a mãe assim tão esquecida, desatinada.  Estresse de ter que cuidar dos mínimos detalhes, de não poder sair, sentir-se presa a esta situação.  Dificuldades para dormir, ter que tomar remédios e, então, sentir-se mal por tudo isso.

“Fico com tanta raiva!”

No meio de soluços e até ânsia de vômito, o desabafo de tanta coisa acumulada, entalada, saiu de maneira intensa.

O grupo, perplexo por um lado, identificado por outro, acolheu o sentimento da colega com afeto.

Depois de acalmá-la, falamos de raiva, de descontrole emocional. De como o copo dágua transborda quando não falamos o que sentimos e vamos acumulando tantas emoções dentro de nós.

Como é importante perceber o que estamos sentindo! Entrar em contato com o sentimento, com a emoção, sem julgar se é bom ou ruim, se é certo ou errado. Apenas sentir, parar e perceber esta emoção. Respirar e observar a si mesmo, aceitar que é ser humano e que tem emoções de ser humano. Aos poucos a tempestade vai passando e o nosso céu se acalmando, as estrelas aparecendo.

Com a cabeça mais fria, podemos nos olhar de novo e compreender melhor o que está se passando. Sem se culpar por sentir raiva, mas podendo transformar esta raiva num desafio, num motivo para mudar.

Perguntando-se de novo:

O que eu preciso aprender com tudo isso? O que esta raiva está querendo me dizer?